12.11.14

Saudades de Nápoles ~ Bertha Worms
de olhos bem fechados
e mente enebriada
deixo-me entrar, por acaso
nessa melodia de transcedência

sinto-me criança ainda
acolhido pela mãe:
o lugar mais seguro do mundo
de todos os tempos
passados e futuros

só essa distância
dos que me são caros
mais esta imensidade que sinto -
maior que tudo
- não são o bastante
para conterem as lágrimas
no coração
apenas.

e essa vontade imensa
de estar lá...

12.5.14

Foi esse o sonho...

Ishtar, with her cult-animal the lion, and a worshipper
Modern impression from a cylinder seal, c. 2300 BC
In the Oriental Institute, University of Chicago
Uma mulher me falava que meu pai e minha mãe tinham sofrido um acidente. Era em Dublin, tenho quase certeza. Eu a interrogava “Onde eles estão?” e ela dispersava, “Ah, estão ali...” “Onde?”, gritava desesperado, “Ali...” e apontava displicentemente para um beco escuro, e alertava: “Mas se eu fosse você eu não iria lá...”.

Claro que eu fui.

Entro no beco e encontro minha mãe caída, desacordada, e meu pai cambaleante, tentando levantá-la. Num instante - num daqueles instantes de sonho que transgridem todas as leis da física - estávamos todos no saguão de um hospital: lembro-me bem de pai, Alê e Teresa. Tem mais gente mas não me lembro quem são, ou não vejo seus rostos. Todos estavam bem calmos, esperando não sei o quê. Eu só queria chegar ao quarto de minha mãe.

Peço informação. Era o quarto número 9, mas disseram que eu não saberia chegar lá... Mostraram-me o mapa do hospital, que parecia o James Connolly, lá de Blanchardstown, em Dublin, mas as imediações tinha a representação urbana de Barcelona, na Espanha.

Chamei Teresa para dar uma olhada no mapa, na esperança de que ela conhecesse o caminho, mas ela estava distraída... Peguei o mapa e disse “Deixa que eu me viro.” Chamei Alê para ir comigo. Ele veio, mas no caminho nos perdemos um do outro. Pedi informação para um enfermeiro-estudante - era um hospital universitário. Ele pegou o mapa, olhou, coçou a cabeça, chamou outro colega, “Não é aquele lugar onde não se pode dormir à noite?”, “Sim, lá não se dorme...”. “Tudo bem”, disse, "eu só quero chegar lá!".

O enfermeiro-estudante me conduziu, correndo um pequeno trote, entre portas e corredores. Um verdadeiro labirinto, e conforme nos emaranhávamos hospital adentro, suas alas ganhavam um aspecto de abandono, de desolamento.

Chegamos ao lugar. O enfermeiro sumiu - mais uma daquelas distorções das leis da física. A porta do quarto número 9 ficava numa parede, e parecia uma gaveta. Confuso, abro a tal porta e vejo o corpo de minha mãe. Embora ela estivesse bonita, não aguento a imagem e despenco em prantos. Retoricamente me pergunto "Por que não me avisaram antes?", já que eu tinha a impressão de que todos sabiam, menos eu.

Acordo... e me concentro em entender o sonho. O número 9.

Para quem acredita em numerologia, o 9 encerra um ciclo natural, a morte de um ciclo e as portas para o início de outro. Pode ser interpretado como o fim das ilusões ou como um recomeço.

Eu, que sou e sempre fui cético para estas coisas, acabo dando ouvido mais pela mitologia, como fenômeno popular de transformação e sua capacidade de conectar diferentes culturas através de histórias, geralmente baseadas em tradições e lendas feitas para explicar os fenômenos naturais, a criação do mundo, o universo ou qualquer outra coisa além da simples compreensão.

Nessa linha, tem um mito bem descritivo da essência do número 9: o Mito da Descida de Ishtar ao submundo. Ishtar, deusa suméria da fertilidade, do amor, da guerra e do sexo, desce ao submundo através de uma imensa caverna vertical e conforme avança os sete portões do inferno, um guardião retira uma peça de seu vestuário real. Quando chega ao fundo do poço, Ishtar está totalmente nua, despojada de suas armas e atributos reais, de seus símbolos de status e de realeza. Voltou ao seu estado original. Quando consegue voltar, ela está modificada - pode-se dizer que morreu e renasceu.

Está aí uma boa explicação para o meu número 9...

8.5.14

a chama que vem de fora


        Qualé, qualé, qualé quelé
de quem é a vez, a vez de quem é
do velho da velha da moça do moço
carteira celu documento e trôco

        Qalou, qalou, qalhou de qalar
do que viu não gostou e não soube falar
qala discórdia da barulhenta horda
silêncio vazio arredio e qalhorda

        De porre, de porre, só mais um gole
esfolegue e esfole caramucho no bucho
desforre ocaso da morte e desporre
s'imole em flamejar de fogo estrebucho

assyno eduardo miranda,
d este temporário porto imsseguro da Terra Brazillis,
oje, qvª-fejra, oitº dia do qvjº mez d este anno de MMXIV

22.2.14

22022014


quatorze passou por mim assim
quattuordecim - ou seria catorze?
aljorze não vesti esse ano, tanto faz
costumaz uma ou duas garrafas... estás afim?

então vai, parte outra vez, na desvalia
de alegrias brancas em areias entufadas
jornada já conhecida d'outras euforias,
ironia cruel de sereias encalhadas.

(volta pra água! volta pra água!)

*

o que seria de mim sem mim?
dois mil anos e quattuordecim,
passaste sobre mim num zepelim
sem arranjos em coroas de alecrim
não se ouviu clarim, flautim, bandolim
tampouco tamboreaste teu tamborim.

quattuordecim, quattuordecim,
teria sido eu assim tão ruim?
foste tu um querubim, quattuordecim,
te chamarias serafim ou delfim?
certamente não te chamarias benjamim.

seria isso tudo só o começo serafim,
e cobrarás ainda tua féria de festim?
certamenrte delfim cobraria-me um rim,
passaria recibo em tinta carmesim
e o compartilharia com amigos de botequim.
benjamim seria diferente, já que arlequim
sairia saltitante de seu camarim,
cruzaria o salão real em seu escarpim,
de talim travessado, perfeito espadachim,
e buscando a paz no seu jeito chinfrim,
benjamim tenta alcançar no bolso seu morim,
mas precipita-se o guarda-real, ainda mirim,
e golpeia-lhe o peito com seu espadim
pensando benjamin fazer parte de um motim.

já que benjamim não mais tocaria seu trompetin,
sua majestade real mandou publicar no pasquim
com enormes letras em nanquim dizendo assim:
"venham todos, todos venham sim,
ver o fim que deu o malandrim,
de arlequim a espadachim, venham sim,
venham ver benjamim pintado em carmesim
esparamado no chão, sujando meu marfim!
p.s.: precisa-se de arlequim-espadachim
não paga-se bem, mas não precisa saber latim."

parabéns, benjamim...
parabéns para mim!
FIM.

assyno eduardo miranda,
d este porto seguro da jlha do Eire,
oje, sabbº, vjgesºsegº dia do segº mez d este anno de MMXIV