21.11.06

-: pequeno tratado do desterro :-
o livro dos rancores

estrelas deitadas em rasas poças
moças bonitas melhor não tê-las

casos de noites de amores morrido
ferido animal evade a largos passos

vida cruel agora que tinhas tudo
mudo mundo de marcadas feridas

amarga testemunha de céu obscuro
puro rancor que só em dor se alarga

enormes peitos composto adiposo
poroso tecido de formas aformes

bunda de bonitos contornos feita
arquétipo de minha libido imunda

abjeto orgão de larga bocaina
vagina cruel cuspidora de feto

herda destempero teu querer
você e nada são a mesma merda

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, terçª feira, vigº primº dia do dezº primº mez d este anno de MMVI

19.10.06

-: pequeno tratado do desterro :-
heresias

1.

alá
+ 66 deuses terríveis
queimam aloés negro

2.

bâqi o eterno e amável
de amor açucara o ar
com danûsh e nulûsh

3.

jâmi
reúne os terríveis
e os amáveis

4.

dayyân conta
65 sândalos vermelhos
ao sol

5.

hâdi com seus 20 guias
também busca sândalos
embora brancos

6.

wali
amigo de puyûsh e raftmâ’il
exala cânfora

7.

zaki
purifica o câncer
com água e mel

8.

haqq composto de
verdades e ódio e terra
composto

9.

tâhir
e o terrível desejo
santo de fogo

10.

yâsin chefe
atrai 130 folhas
de rosas de marte

20.

kâfi presumido folhas
de rosas brancas
e escorpiões

30.

latif separa as maçãs
benignas
para vênus

40.

malik rei de marmelo
leão terrível
de amor

50.

nûr
luz de ódio odor
jacinto libra amável

60.

sami’ ouve desejo
expresso nos diferentes
perfumes d’água

70.

’ali exaltado enriquece na
terra virgem da pimenta
branca

80.

fattâh que abre a noz
para o leão e a
hostilidade

90.

samad estabelecido sob
sol e intensidade
moscada

100.

qâdir
composto água desejo
peixe e vênus

200.

rab + 200 senhores
banham virgens com
água de rosas

300.

shafi’ aceita o escorpião
com aroma de aloés
branco

400.

tawwâb perdoa
a insônia de latyûsh e
azrâ’il

500.

thâbit
estável ódio e águas
sem peixes e águas

600.

khâliq criador de 731
violetas na terra de
capricórnio

700.

dhâkir se recorda dos
manjericões de fogo
em fogo

800.

dârr com ar cítiso
pune vênus
e aquário

900.

zâhir evidencia
1106 hostilidades
a ghafûpush e nurâ’il

1000.

ghafûr grande perdoador
despeja cravos-da-índia
na terra convalescente

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmtª feira, dezº nonº dia do dezº mez d este anno de MMVI

21.9.06

eu e minha boca ferida, leiloada ao silêncio
numa manhã desprovida de pássaros e sem lascas de sol.
uma nudez de alguma ausência anuncia um acontecimento:

busco devolver o corpo ao corpo... do corpo aos corpos
depois de tudo o que passei:

joões-de-barro despencados galho a galho
pedras desfolhadas em saveiros estelares
surpreso ao constatar que algo em mim ainda cresça,
(apesar de tudo)

a dureza,
à dureza,
àa dureza.
àà dureza.


nascido em fevereiro,
como pude endomingar-me?


asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmtª feira, vigézº primº dia do nonº mez d este anno de MMVI

16.9.06

... e o tempo não parou para nós
como esperávamos.
antes, ele nos abraçou com a vontade
de quem revê um velho amigo que não se via há muito...

mas ao menos fizemos graça disso tudo,
como brincadeira de criança:
um ano para você, um ano para mim,
invariavelmente...

assim nossos olhos cegos poderão
continuar a enxergar em nós
toda a beleza que queremos enxergar...

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, sabbato, dezº sexº dia do nonº mez d este anno de MMVI

6.9.06

Grandfather

Derek Mahon, born Belfast 1941

They brought him in on a stretcher from the world,
Wounded but humorous; and he soon recovered.
Boiler-rooms, row upon row of gantries rolled
Away to reveal the landscape of a childhood
Only he can recapture. Even on cold
Mornings he is up at six with a block of wood
Or a box of nails, discreetly up to no good
Or banging round the house like a four-year-old --

Never there when you call. But after dark
You hear his great boots thumping in the hall
And in he comes, as cute as they come. Each night
His shrewd eyes bolt the door and set the clock
Against the future, then his light goes out.
Nothing escapes him; he escapes us all.

19.8.06

despojamento

...e por outro lado, outras bandas & outros ares
outros todomundo perguntavam, apesar dos pesares:
e tu, amiga, sabes donde estas metendo tua colher?
e tu dizia, preocupem não, sei o que estou a fazer.

embora saber sabia, o que prever não podia era donde
tal viagem ia dar, no coração é certo, se perto ou longe
do núcleo, ele mesmo o divisor do que é eterno ou efêmero,
que só de a dúvida brotar já fica o coração mais enfermo...

e coisa vai, coisa ia, tudo bem regado a certa poesia,
a tal do dia a dia, que encanta, enfeitiça e alumia
e se já se vai meio sem rumo, ponto sem nó, fruta sem sumo
aí é que o bicho pega, a cabra cega e a cobra leva fumo.

e mesmo sem crer em dito popular, maldito ou bendito que seja
entrega-se a alma e tudo mais que nela se carrega, de bandeja,
e ao entregar tão valoroso bem a um outro, esse tal de Alguém,
vê-se que também se queria que esse Alguém lhe desse o mesmo bem,

mas se de esperar a gente se cansa, contravontades de amores
então luta-se contra a vontade, a evitar devastações maiores
e parte-se, divide-se, subtrai-se então, e sem somatória
vai-se à procura de algo(uém) pra ajuntar e fazer história.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, sabbato, dezº nonº dia do octº mez d este anno de MMVI

16.8.06

"eu vivo em trincheiras provisórias "
antônio risério


todo morto traz na cara
a marca do que viveu
cujo cunho pode estar no peito
feito o cunho que está no meu

todo morto tem uma vida
dia ou outro rogada a deus
heréu cabresto da própria sina
enzima azêda que acometeu

todo morto bem morrido
é jazido na jazida que escolheu
aquilo que te mata, meu amigo
te digo que também mata eu.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qvarª feira, dezº sesº dia do octº mez d este anno de MMVI

15.8.06

los tejidos templarios

achega-te a mim nega, diz em primeiro plano -
titubeante mas fluente - que sou, que faço, me abunda
incha minha bola de festim com estalido catalano
(estou absolutamente apático nesta segunda)

dou de comer & de beber a todo o ócio distraído
tapas & beijos & cavas a alegrias passageiras
imagino-me como uma puta de avenidas estrangeiras
a exibir um falso-brilhante já gasto e abatido

fecho as janelas, deito-me ao chão do equador
inevitavelmente ao sul, tanto por aquis como por lás
sempre voltarei para os flamboyants dos meus orixás

já posso me ver como um gris de flamejante topor
a consumir meus dias avindos e voluntários
lleno de estampas en los tejidos templarios.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, terçª feira, dezº qujmto dia do octº mez d este anno de MMVI

13.8.06

retirante

para meu pai, no seu dia...

e se quando aqui chegou
tinha algo pra falar, calou:
é que o coração desdentado
desconhecia o verbo enroscado
na garganta

e aquele mundo antes pequeno,
ameno, que lhe possibilitava, matou.
:deixou de sonhar o horizonte númeno
autógeno da possibilidade iminente
e lembrou

de um passado saudoso, e chorou
o choro dos bravos, mas lutou
pelo que veio buscar, eminente
veio, viu, venceu: plantou fruto donde
nasci eu...

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, domjngo, dezº terçº dia do octº mez d este anno de MMVI

10.8.06

alheia

manter o movimento das coisas
nas coisas todas que tocaste
como se mexidas há pouco
no pouco tempo que ficaste.

e parece que ainda andas de vulto
inulto bulir das coisas com precisão
de ladrão: rouba-me, leva-me, lava-me,
sirva-te de mim, mas não deixa eu não.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmta feira, dezº dia do octº mez d este anno de MMVI

alumia

[para arnaldo xavier]
alumia
incandesce o extremo norte
desse cachimbo boreal
e inala...
inala ao sul desce denso peyote
chicote açoita narinas & pulmões

alumia, alumia
bota voz & poder dentro nessa boca
abre braços & pernas prum leste-oeste qualquer
e constata...
está tudo tão cheio de deuses,
e deuses não arredam pé

alumia, alumia, alumia
explode veia temporal & fecha
o sabre-flecha d'cabeça escalpada
e arremata...
mata um pássaro hontem
com a pedra que atiraste oje.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmta feira, dezº dia do octº mez d este anno de MMVI

25.7.06

the week - sunday

sunday.
sweaty sheets & awakenings of oversleep —
but never will be an oversleep.
silent sun of fire planks
my fourth moment.

childish tv shows, families i don’t want
everything's just a sedative (in bulk) for the game.

lunch at my place, everybody is welcome
we’ll try to have fun.
then, movie theater, beer & snacks
(and still the fairies will be in their nests)

the ends are all the same
masses i don’t attend
(can’t stand civilization)
and you went awayforgetting to take my heart along.




domingo.
lençóis suados e despertares de perder a hora —
mas nunca haverão horas a perder.
silêncioso sol de fogo assoalha
meu quarto instante.

programas infantis, famílias não me quero
tudo só calmante (a granel) para o jogo.

almoço lá em casa, chama o pessoal
a gente tenta se divertir.
depois cinema cerveja & pastel
(e ainda assim as fadas estarão em seus ninhos)

os finais sempre os mesmos
missas que não freqüento
(não suporto civilização)
e você foi embora
esquecendo de levar meu coração.

the week - saturday

saturday.
afternoons smothered in slim tears
transparent, absent. (non-existent)
telephone call compromising
desires full of sunbath

but today is more was more will be more…
wide black hat (her gift)
golden braids & petroleum earrings:
don’t let our boat wreck!

round and smiling coats
movies without tales …
doesn’t matter whether lying sitting or standing
showers & jacuzzi baths
your naked always virgin body
so my sins could engulf you.

do not demand anything and i will not desire either
let us be imperfectand our adorations still will be unique…




sábado.
tarde sufocada em fina lágrima
transparente, inexistente.
telefonema compromete
vontade cheia de banho de sol.

mas hoje é mais foi mais será mais…
chapéu largo e preto (presente dela)
tranças de ouro e brincos de petróleo:
não deixe naufragar nosso barco!

casacos redondos e risonhos
filmes sem contos…
não importa se deitado sentado ou em pé
duchas & hidromassagens
teu corpo nu sempre virgem
para que meus pecados possam te satisfazer.

não exijas nada que também não desejo
sejamos imperfeitos
e nossas adorações ainda serão únicas…

the week - friday

friday.
hallucinations disturb
what you think feel see.
body culture there
beers & spirits & nicotines here
occasionally we break the routine.

courage! courage!
put down your guard & your guns…
he&she young guns dirty sweaty itchy
stuck on li'le nylon bags (i see…)
luxury is out (madness…)
humidifying our stunted eyes.

icebergs worn
for a typical tropical summer morn…
not that conventional, not that bad…what can go bad?


sexta.
alucinações perturbam
o que você pensa sente vê.
culturas do corpo ali
cervejas & aguardentes & nicotinas aqui
vez ou outra a gente quebra a rotina.

coragem! coragem!
baixe a guarda & a arma…
moleques & molecas sujos suados sarnentos
colados em sacos plásticos (entendo…)
o luxo está em baixa (loucura…)
umedecendo nossos olhos pequenos.

icebergs fantasiados
para uma manhã de verão carioca…
nada convencional, nada mal…
o que vou mal?

20.7.06

the week - thursday

thursday.
it’s coming it’s coming
almost 7 but not 5.
(i lie & lie & lie)
i love to lie and break logics into small pieces
or be silent. i’m going to be silent now!

music ‘de lius’, or
invertebrate prelude
of the purest stainless steel
crowned & unexplained
vague silent-pause chained
hard line de-ridiculed
of all yearnings want-mores.

I hope to see you but I don’t see you
kiss……………
bye…………….


quinta.
vem chegando vem chegando
hoje dá 7 mas não chega 5.
(minto minto minto)
adoro mentir e estilhaçar lógicas
ou me calar. vou me calar agora!

música de lius, ou
prelúdio invertebrado
do mais puro aço
coroadas & inexplicadas
vago silêncio-pausa acorrentado
duro traço desesculachado
de todo queromais.

espero te ver não te vejo

beijo……
tchau…………

19.7.06

the week - wednesday

wednesday.
spacials cinema showings in the city centre:
popcorns & chocolates. kisses before and after.
darkness of lost lanterns,
lipsticks & gums…
who talks about the job pays a candy!

black tea and milk, book sales, cigarettes
(cof! cof! cof!)…
the smoke disappears in the cold of the night
like us.

we embrace each other,
and share our warmth.
buses & shoulders & sleepinesses
all the way home on foot.

searching for free laughs
yet we are both of a different us.


quarta.
sessões de cinema espaciais no centro da cidade:
pipocas & chocolates. beijos antes e depois.
escurinho de lanternas sem destino,
batons & chicle…
quem falar de serviço paga um bombom!

chá mate com leite, liquidação de livros, cigarros
(cóf! cóf! cóf!)…
desaparecem as fumaças no frio da noite
assim como nós.

a gente se abraça,
divide nosso calor.
ônibus & ombros & sonos
o caminho pra casa, a pé.

em busca de risadas livres
ainda somos diferentes dois.


18.7.06

the week - tuesday

tuesday.
the third time i call you in my imagination
looking for something under the desk
for some kind of note: crystalline forgivenesses,
streams of tear drops and truths,
anonymous, sulphurous, disinfected. nothingness.

but today musical signs will take over
my thoughts,
but the heart, nudging, nudging,
like a cunning wand waving:
one, two, three, four, one, two, three, four,
one, two, 3, 4…

5.000 times no!
one day i’ll see you
far from feline eyes…
and nevertheless it will be real
as it always was.


terça.
terceira vez que te ligo de imaginação
procurando embaixo das mesas
algum recado: perdoares cristalinos,
gotas de lágrimas e de verdades,
anônimas, sulfurosas, desinfetadas. nada.

mas hoje notas musicais tomarão conta
de meus pensamentos,
menos do coração, que cutuca, cutuca,
feito batuta astuta:
um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro,
um, dois, 3, 4…

5.000 vezes não!
um dia eu vou te ver
longe de olhares felinos…
e ainda assim será de verdade
como sempre foi.

17.7.06

the week - monday

monday.
a rose looks tenebrous
in this garden.

even now early i am out of myself...
buses, books, news i didn’t read
beautiful girls & their wretched wet hair
& crushed faces (what's for lunch?)
clock-in card and the beginning of the week…
the same flutter.

drizzle cries drops outside — it’s my turn…
quick! the mask! the mask!
i don’t want to sin anymore!

i have my feet fixed into the cement,
& wreck: “going down... and down...
get lost with him,
it’s not worth this torment!”

but it’s just the beginning, nothing ends that soon.
we can’t allways keep up with appointments
contempts & break-ups loaded involuntarily
graves of light in flooded epitaph…
inside will be the eyes of comprehension.


segunda.
uma rosa parece tenebrosa
neste jardim.

já cedo me perdi…
ônibus, livros, notícias que não li
garotas bonitas e seus pobres cabelos molhados
& caras amassadas (o que será no almoço?)
cartão de ponto e início de semana…
o mesmo alvoroço.

uma garoa chora lá fora — chegou minha vez…
rápido! a máscara! a máscara!
não quero pecar outra vez!

tenho os pés cravados no cimento,
e afundo: “ao fundo… ao fundo…
sumam com ele,
não vale a pena este tormento!”

mas é apenas o começo, nada acaba tão cedo.
nem sempre podemos respeitar as horas marcadas
desprezos & foras carregados involuntariamente
túmulo de luz em epitáfios inundados…
dentro estarão os olhares de compreensão.

16.6.06

the bloomsday

Hoje é Bloomsday, data fictícia comemorada oficialmente para homenagear Ulysses, romance de James Joyce. Se trata das aventuras de Leopold Bloom pelsa ruas de Dublin, no dia 16 de Junho de 1904.
=8¬;/

A Flower Given to my Daughter

Frail the white rose and frail are
Her hands that gave
Whose soul is sere and paler
Than time's wan wave.

Rosefrail and fair--yet frailest
A wonder wild
In gentle eyes thou veilest,
My blueveined child.

James Joyce, Trieste, 1913

8.6.06

we real cool - gwendolyn brooks

The Pool Players
Seven at the Golden Shovel


We real cool. We
Left school. We

Lurk late. We
Strike straight. We

Sing sin. We
Thin gin. We

Jazz June. We
Die soon.

gwendolyn brooks

31.5.06

Walt Whitman

Hoje seria o aniversário de Walt Whitman. Nascido a 31 de maio de 1819 em South Huntington, Long Island, New York...

A primeira edição de Folhas de Relva (Leaves of Grass) foi publicada por Whitman, às próprias custas, em 1855, no memso ano da morte do pai. Nesta época, o livro consistia de 12 poemas longos e sem título. A reação de público e crítica foi irrelevante. Um ano mais tarde, a segunda edição, incluindo uma carta pessoal de parabenização de Ralph Waldo Emerson, na qual o próprio Emerson se surpreendeu ao ver publicada. A edição continha 20 poemas adicionais. Durante a Gerra Civil Americana, Whitman ajudou a cuidar de soldados feridos na cidade de Washington e imediações. Ali teve a oportunidade de conhecer Abraham Lincoln, e veio a ser um grande admirador do Presidente. Seu poema "O Captain! My Captain!" (Oh Capitão! Meu Capitão!) popularizado por Robin Willians no filme A sociedade dos Poetas Mortos em 1989, foi inspirado na morte de Lincoln.



Não chamo um o maior e outro o menor,
Quem quer que preencha o seu período de tempo
e lugar é igual a qualquer outro.

Meus signos são uma capa à prova de chuva, bons
calçados e um bordão colhido nos bosques.
Nenhum dos meus amigos busca descanso em
minha cadeira.
Não possuo cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo homem algum à mesa do jantar,
biblioteca ou casa de câmbio,
Mas conduzo cada um de vós, homem ou mulher,
para o alto de um outeiro
Minha mão esquerda prende-vos pela cintura,
Minha mão direita aponta em direcção de
continentes e estrada aberta.

19.5.06

Poema de Sete Faces - Drummond

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

7.4.06

parto como se saudoso fosse solitárionauta nessa ilha-verde-do-nada
calo-me num grito tão alto como o silêncio que aterroriza de branco
o canto escuro em que pensei poesia num dia claro de verão paulista
racista sem o filtro de aglutinantes cores em branco tampouco preto
quieto & ausente de sentido dele mesmo despresença axeviena e sinto
garimpo-galope louco de desejo com pexeira & verbo na boca em riste
saiste rápino como sempre & também saio eu deste ninho de conformes
disforme ninguém que fui & ao sair parto cu'a impressão de ir tarde

Logo de manhã
casacos cruzam os braços
deitados na praça.

26.3.06

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


7 - Il saluto - Davide Rondoni

Poi il cuore si fa silenzioso
e tutti i clamori, gli stupiti
mancamenti, e questi uccelli impazziti
e dolci di parole chiudono
le ali –

e stanno a guardarti, tornati
immobili sui rami del cuore
osservano fermi con occhietti animali
via quel tuo andare

ma al saluto, ultimo, meraviglia
uguale che dai con il viso sulla spalla perfetti
sarebbero di nuovo già pronti ad alzarsi
far casino, strepitare.

24.3.06

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


6 - Dous poetas galegos...

Longa Noite de Pedra - Celso Emilio Ferreiro

O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan,
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.

* * *

In A Silent Way - Manuel Outeiriño

Fóronlle doendo as razóns que dá o tempo,
mais procuraba roelas, ben roídas,
e non daba calado, o que se di
calar, non daba.
Andaba a voces, e adoecido, o pobre,
cos anacos da súa decoración
interiorista: un pórtico de pedra con figuras polícromas.
Morría co frío -viña aí o mal tempo- o pobre de pedir
do seu espírito.

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


5 - A Vera - Nâzim Hikmet

Dentro de mí hay un árbol
traje su vástago del sol.
Sus hojas se balancean como peces de fuego
y sus frutos gorjean como pájaros.

Los astronautas
descendieron hace tiempo a la estrella que guardo dentro de mí.
Hablan en lenguas oídas en sueños
sin órdenes desplantes ni súplicas.

Dentro de mí hay un camino albo.
Por él pasan las hormigas con sus granos de trigo
y los camiones con sus gritos de fiesta
pero está prohibido el paso a los coches fúnebres.

Dentro de mí el tiempo se detiene
como una rosa roja y perfumada.
Pero hoy es viernes y mañana sábado
mucho se me fue y poco me queda pero no me importa.

23.3.06

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


4 - Élévation - Charles Baudelaire

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delà les confins des sphères étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins;

Celui dont les pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!

21.3.06

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


3 - Llibre de Sinera - Salvador Espriu

[fragments...]

Ordenat, establert, potser intel·ligible,
deixo el petit món que duc des de l'origen
i des d'ell m'envoltà, car arriben de sobte
els neguitosos passos al terme del camí.
Concedida als meus ulls l'estranya força
de penetrar tot aquest gruix del mur, contemplo
els closos, silenciosos, solitaris
conceptes que van creant i enlairen
per a ningú les agitades mans del foc.
Ah, la diversa identitat davallada dels pous,
tan dolorós esforç per confegir i aprendre,
una a una, les lletres dels mots del no-res!
Aücs del vent albardà entorn de la casa.
Vet aquí l'home vell, al davant de la casa,
com alça a poc a poc la seva pols
en un moment, àrid i nu, d'estàtua.
Terra seca després, ja per sempre
fora del nombre, del nom, trossejada
a les fondàries per les rels de l'arbre.

...

Però en la sequedat arrela el pi
crescut des d'ella cap al lliure vent
que ordeno i dic amb unes poques lletres
d'una breu i molt noble i eterna paraula:
m'alço vell tronc damunt la mar,
ombrejo i guardo el pas del meu camí,
reposa en mi la llum i encalmo ja la nit,
torno la dura veu en nu roquer del cant.

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


2 - Dispersão - Mário de Sá Carneiro

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas p'ra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

.....................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
.....................................

20.3.06

A Poetry a day to keep the doc away
A 7 days' friendship-repair program!


1 - Al Partir - Nâzim Hikmet

Al partir, me quedan cosas que acabar,
al partir.
Salvé la gacela de la mano del cazador,
pero siguió desvanecida, sin recobrar el sentido.
Cogí la naranja de la rama,
pero no pude depojarla de su corteza.
Me reuní con las estrellas,
pero no pude contarlas.
Saqué agua del pozo,
pero no pude servirla en los vasos.
Coloqué las rosas en la bandeja,
pero no pude tallar las tazas de piedra.
No sacié mis amores.
Al partir, me quedan cosas que acabar,
al partir.

8.3.06

nâzim hikmet

Poet, playwright, novelist, memoirist
born: 1902, Salonica; died: June 3, 1963, Moscow

A fervent nationalist patriot, a socialist whose humanistic views tran- scended barriers of race and country, Nazim Hikmet is considered one of Turkey's very foremost modern poets... and yet for many years his works were banned in his native country and he himself suffered long exile.

"violaram nossos ramos verdes e frescos
fraturaram nossas mãos que seguravam um livro
fizeram escorrer o sangue de nossos filhos.
"

tradução (do espanhol): eduardo miranda

22.2.06

22022006

pois é, eDu, finalmente nasceste...
embora nem parecesse, e nem por isso pareces estar
mais vivo ou mais morto do que costumavas aparentar,
tampouco mais ou menos torto do que sempre esteves,
desde o segundo nascimento - que o primeiro não conta -
nascimento no qual se tornaste gente, dos pensantes, nada mais
[aquele dos homens medíocres e seus 100 valores morais].
engenheiros do tempo, melhor mesmo é parar de contar - tudo é cabeça -
trinta e dez é igual a quarenta, não faz diferença...
e ainda assim tens muito o que melhorar... ah se tens!
este teu jeito enfático, cangaceiro de discurso-peixeira
que enfileira & intimida pela des(-razão) da (des-)razão,
entorta & sufoca & inibe & abafa a todo discurso,
anti-curso do que buscas, que também és tu um solitário...
- e se ja eras, ainda mais agora, arauto galgo de coisas & sofrimentos
+ de tudo, então tu, esmo esborro, fidalgo dalgo incerto,
valgo de tu mesmo, quinta parte ou sesmo do que pretendias inteiro,
sendeiro oscuro & ebscuro, danado de errado e bom, que não aprendeu
a contar de dez a um, mas de vez por todas & que sempre já soube:
só mais um... só mais um... para sempre só mais um...
aí solitarionauta partes em busca desafreada a caçadas insanas
deshumanas e deshalmadas por todos os futuros hontems e passados ojes
de todas as almas (inumanas) que poçã hexistir, fossa himunda
de todos os apegos e (de)formações: todamágoa, todorancor, todaraiva
- aquela mesma que nos mata em cada dia dos nossos dias -
e a palavra cotidiana desprezada, que embora já seja palavra apenas,
é da boca pra dentro, e inunda de boa vontade os interiores,
e como sabemos, de boa vontade em boa vontade se vai ao longe,
embora não adiante muito o bonde...

parabéns pra você.

assyno eduardo miranda,
d este porto seguro da jlha do Eire,
oje, qvartªfeira, vjgesºsegº dia do segº mez d este anno de MMVI

15.2.06

meu coração opaco, minúsculo
músculo fraco de dissimulada ação;
o mesmo facão que fere teu peito,
digo-te, efeito no meu não causa não.

então diga, qual lâmina é essa
que depressa corta e abre um vão
entre vontades & desejos, ardente,
rente ao juízo mas fundo ao coração?

amor qual é esse, à própria sorte atirado,
temperado com tempero de pouco sabor;
ao antepor outro amor, pois já enlevado,
desacertado então, o amor torna-se dor.

e soto sentimento, virado do avesso,
confesso e sabido torto desde orto,
porto inseguro do que tenho em apreço,
careço daquilo que não o faz natimorto.


asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, quarta feira, quymzº dia do segº mez d este anno de MMVI

6.2.06

cajuína - caetano veloso

E talvez se tenha se suicidado-se por isso mesmo, por ser demolidor d'estéticas n'onde outros procuravam construir/conquistar carreiras, os (já) ditos tropicalistas (Gil, Caetano & cia), Torquato se afastou de tudo e todos num mergulho solitário - solitarionauta e seus procedimentos suicidiocratas: deixou-se sem resposta a pergunta aqu' inscrita...

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

2.2.06

torquatame.
ferreirame & cabralame
pessoalmente me chamie algo de pound.
haroldame e augustame, pois já ia eliotizar
pitgnatariamente os véus da música:
velosa, buarqua, antunas, nascimenta e gilada
barnabélica, paschoaliana, gismontiana
moraeseira, gilberteira, toquinhada,
na cartola da pixinga, bandolin, pandeiro & viola
ahora eh aghora...

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmta feira, segº dia do segº mez d este anno de 2oo6

17.1.06

Josep D'Agustint

soy un pescador
de avanzada edad
y navego solo
solo por necesidad.

necesidad de estar
en total tranquilidad
pero sinto lo pesar
de una otra necesidad.

necessitat de tener
alguien para acariciar
pero tras de açò afecte
restes diversa cosa qu'estimar.

i si amar solo no és possible
i tota possibilitat és plena
soy adoncs un amante eteri
en una eteridat terrena.

Josep D'Agustint

10.1.06

A Educação pela Pedra - João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
[pela de dicção ela começa as aulas].
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra [de fora para dentro,
Cartilha muda], para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
[de dentro para fora, e pré-didática].
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.