31.5.06

Walt Whitman

Hoje seria o aniversário de Walt Whitman. Nascido a 31 de maio de 1819 em South Huntington, Long Island, New York...

A primeira edição de Folhas de Relva (Leaves of Grass) foi publicada por Whitman, às próprias custas, em 1855, no memso ano da morte do pai. Nesta época, o livro consistia de 12 poemas longos e sem título. A reação de público e crítica foi irrelevante. Um ano mais tarde, a segunda edição, incluindo uma carta pessoal de parabenização de Ralph Waldo Emerson, na qual o próprio Emerson se surpreendeu ao ver publicada. A edição continha 20 poemas adicionais. Durante a Gerra Civil Americana, Whitman ajudou a cuidar de soldados feridos na cidade de Washington e imediações. Ali teve a oportunidade de conhecer Abraham Lincoln, e veio a ser um grande admirador do Presidente. Seu poema "O Captain! My Captain!" (Oh Capitão! Meu Capitão!) popularizado por Robin Willians no filme A sociedade dos Poetas Mortos em 1989, foi inspirado na morte de Lincoln.



Não chamo um o maior e outro o menor,
Quem quer que preencha o seu período de tempo
e lugar é igual a qualquer outro.

Meus signos são uma capa à prova de chuva, bons
calçados e um bordão colhido nos bosques.
Nenhum dos meus amigos busca descanso em
minha cadeira.
Não possuo cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo homem algum à mesa do jantar,
biblioteca ou casa de câmbio,
Mas conduzo cada um de vós, homem ou mulher,
para o alto de um outeiro
Minha mão esquerda prende-vos pela cintura,
Minha mão direita aponta em direcção de
continentes e estrada aberta.

19.5.06

Poema de Sete Faces - Drummond

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

7.4.06

parto como se saudoso fosse solitárionauta nessa ilha-verde-do-nada
calo-me num grito tão alto como o silêncio que aterroriza de branco
o canto escuro em que pensei poesia num dia claro de verão paulista
racista sem o filtro de aglutinantes cores em branco tampouco preto
quieto & ausente de sentido dele mesmo despresença axeviena e sinto
garimpo-galope louco de desejo com pexeira & verbo na boca em riste
saiste rápino como sempre & também saio eu deste ninho de conformes
disforme ninguém que fui & ao sair parto cu'a impressão de ir tarde

Logo de manhã
casacos cruzam os braços
deitados na praça.

26.3.06

A Poetry a day to keep the doc away
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7 - Il saluto - Davide Rondoni

Poi il cuore si fa silenzioso
e tutti i clamori, gli stupiti
mancamenti, e questi uccelli impazziti
e dolci di parole chiudono
le ali –

e stanno a guardarti, tornati
immobili sui rami del cuore
osservano fermi con occhietti animali
via quel tuo andare

ma al saluto, ultimo, meraviglia
uguale che dai con il viso sulla spalla perfetti
sarebbero di nuovo già pronti ad alzarsi
far casino, strepitare.

24.3.06

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6 - Dous poetas galegos...

Longa Noite de Pedra - Celso Emilio Ferreiro

O teito é de pedra.
De pedra son os muros
i as tebras.
De pedra o chan
i as reixas.
As portas,
as cadeas,
o aire,
as fenestras,
as olladas,
son de pedra.
Os corazós dos homes
que ao lonxe espreitan,
feitos están
tamén
de pedra.
I eu, morrendo
nesta longa noite
de pedra.

* * *

In A Silent Way - Manuel Outeiriño

Fóronlle doendo as razóns que dá o tempo,
mais procuraba roelas, ben roídas,
e non daba calado, o que se di
calar, non daba.
Andaba a voces, e adoecido, o pobre,
cos anacos da súa decoración
interiorista: un pórtico de pedra con figuras polícromas.
Morría co frío -viña aí o mal tempo- o pobre de pedir
do seu espírito.

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5 - A Vera - Nâzim Hikmet

Dentro de mí hay un árbol
traje su vástago del sol.
Sus hojas se balancean como peces de fuego
y sus frutos gorjean como pájaros.

Los astronautas
descendieron hace tiempo a la estrella que guardo dentro de mí.
Hablan en lenguas oídas en sueños
sin órdenes desplantes ni súplicas.

Dentro de mí hay un camino albo.
Por él pasan las hormigas con sus granos de trigo
y los camiones con sus gritos de fiesta
pero está prohibido el paso a los coches fúnebres.

Dentro de mí el tiempo se detiene
como una rosa roja y perfumada.
Pero hoy es viernes y mañana sábado
mucho se me fue y poco me queda pero no me importa.

23.3.06

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4 - Élévation - Charles Baudelaire

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,
Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,
Par delà le soleil, par delà les éthers,
Par delà les confins des sphères étoilées,

Mon esprit, tu te meus avec agilité,
Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l'onde,
Tu sillonnes gaiement l'immensité profonde
Avec une indicible et mâle volupté.

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;
Va te purifier dans l'air supérieur,
Et bois, comme une pure et divine liqueur,
Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

Derrière les ennuis et les vastes chagrins
Qui chargent de leur poids l'existence brumeuse,
Heureux celui qui peut d'une aile vigoureuse
S'élancer vers les champs lumineux et sereins;

Celui dont les pensers, comme des alouettes,
Vers les cieux le matin prennent un libre essor,
- Qui plane sur la vie, et comprend sans effort
Le langage des fleurs et des choses muettes!

21.3.06

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3 - Llibre de Sinera - Salvador Espriu

[fragments...]

Ordenat, establert, potser intel·ligible,
deixo el petit món que duc des de l'origen
i des d'ell m'envoltà, car arriben de sobte
els neguitosos passos al terme del camí.
Concedida als meus ulls l'estranya força
de penetrar tot aquest gruix del mur, contemplo
els closos, silenciosos, solitaris
conceptes que van creant i enlairen
per a ningú les agitades mans del foc.
Ah, la diversa identitat davallada dels pous,
tan dolorós esforç per confegir i aprendre,
una a una, les lletres dels mots del no-res!
Aücs del vent albardà entorn de la casa.
Vet aquí l'home vell, al davant de la casa,
com alça a poc a poc la seva pols
en un moment, àrid i nu, d'estàtua.
Terra seca després, ja per sempre
fora del nombre, del nom, trossejada
a les fondàries per les rels de l'arbre.

...

Però en la sequedat arrela el pi
crescut des d'ella cap al lliure vent
que ordeno i dic amb unes poques lletres
d'una breu i molt noble i eterna paraula:
m'alço vell tronc damunt la mar,
ombrejo i guardo el pas del meu camí,
reposa en mi la llum i encalmo ja la nit,
torno la dura veu en nu roquer del cant.

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2 - Dispersão - Mário de Sá Carneiro

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(O Domingo de Paris
Lembra-me o desaparecido
Que sentia comovido
Os Domingos de Paris:

Porque um domingo é família,
É bem-estar, é singeleza,
E os que olham a beleza
Não têm bem-estar nem família).

O pobre moço das ânsias...
Tu, sim, tu eras alguém!
E foi por isso também
Que te abismaste nas ânsias.

A grande ave doirada
Bateu asas para os céus,
Mas fechou-as saciada
Ao ver que ganhava os céus.

Como se chora um amante,
Assim me choro a mim mesmo:
Eu fui amante inconstante
Que se traiu a si mesmo.

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro -
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

Saudosamente recordo
Uma gentil companheira
Que na minha vida inteira
Eu nunca vi... mas recordo

A sua boca doirada
E o seu corpo esmaecido,
Em um hálito perdido
Que vem na tarde doirada.

(As minhas grandes saudades
São do que nunca enlacei.
Ai, como eu tenho saudades
Dos sonhos que não sonhei!...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

Ternura feita saudade,
Eu beijo as minhas mãos brancas...
Sou amor e piedade
Em face dessas mãos brancas...

Tristes mãos longas e lindas
Que eram feitas p'ra se dar...
Ninguém mas quis apertar...
Tristes mãos longas e lindas...

Eu tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?... Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E, louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida
Eu sigo-a, mas permaneço...

.....................................
Castelos desmantelados,
Leões alados sem juba...
.....................................

20.3.06

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1 - Al Partir - Nâzim Hikmet

Al partir, me quedan cosas que acabar,
al partir.
Salvé la gacela de la mano del cazador,
pero siguió desvanecida, sin recobrar el sentido.
Cogí la naranja de la rama,
pero no pude depojarla de su corteza.
Me reuní con las estrellas,
pero no pude contarlas.
Saqué agua del pozo,
pero no pude servirla en los vasos.
Coloqué las rosas en la bandeja,
pero no pude tallar las tazas de piedra.
No sacié mis amores.
Al partir, me quedan cosas que acabar,
al partir.

8.3.06

nâzim hikmet

Poet, playwright, novelist, memoirist
born: 1902, Salonica; died: June 3, 1963, Moscow

A fervent nationalist patriot, a socialist whose humanistic views tran- scended barriers of race and country, Nazim Hikmet is considered one of Turkey's very foremost modern poets... and yet for many years his works were banned in his native country and he himself suffered long exile.

"violaram nossos ramos verdes e frescos
fraturaram nossas mãos que seguravam um livro
fizeram escorrer o sangue de nossos filhos.
"

tradução (do espanhol): eduardo miranda

22.2.06

22022006

pois é, eDu, finalmente nasceste...
embora nem parecesse, e nem por isso pareces estar
mais vivo ou mais morto do que costumavas aparentar,
tampouco mais ou menos torto do que sempre esteves,
desde o segundo nascimento - que o primeiro não conta -
nascimento no qual se tornaste gente, dos pensantes, nada mais
[aquele dos homens medíocres e seus 100 valores morais].
engenheiros do tempo, melhor mesmo é parar de contar - tudo é cabeça -
trinta e dez é igual a quarenta, não faz diferença...
e ainda assim tens muito o que melhorar... ah se tens!
este teu jeito enfático, cangaceiro de discurso-peixeira
que enfileira & intimida pela des(-razão) da (des-)razão,
entorta & sufoca & inibe & abafa a todo discurso,
anti-curso do que buscas, que também és tu um solitário...
- e se ja eras, ainda mais agora, arauto galgo de coisas & sofrimentos
+ de tudo, então tu, esmo esborro, fidalgo dalgo incerto,
valgo de tu mesmo, quinta parte ou sesmo do que pretendias inteiro,
sendeiro oscuro & ebscuro, danado de errado e bom, que não aprendeu
a contar de dez a um, mas de vez por todas & que sempre já soube:
só mais um... só mais um... para sempre só mais um...
aí solitarionauta partes em busca desafreada a caçadas insanas
deshumanas e deshalmadas por todos os futuros hontems e passados ojes
de todas as almas (inumanas) que poçã hexistir, fossa himunda
de todos os apegos e (de)formações: todamágoa, todorancor, todaraiva
- aquela mesma que nos mata em cada dia dos nossos dias -
e a palavra cotidiana desprezada, que embora já seja palavra apenas,
é da boca pra dentro, e inunda de boa vontade os interiores,
e como sabemos, de boa vontade em boa vontade se vai ao longe,
embora não adiante muito o bonde...

parabéns pra você.

assyno eduardo miranda,
d este porto seguro da jlha do Eire,
oje, qvartªfeira, vjgesºsegº dia do segº mez d este anno de MMVI

15.2.06

meu coração opaco, minúsculo
músculo fraco de dissimulada ação;
o mesmo facão que fere teu peito,
digo-te, efeito no meu não causa não.

então diga, qual lâmina é essa
que depressa corta e abre um vão
entre vontades & desejos, ardente,
rente ao juízo mas fundo ao coração?

amor qual é esse, à própria sorte atirado,
temperado com tempero de pouco sabor;
ao antepor outro amor, pois já enlevado,
desacertado então, o amor torna-se dor.

e soto sentimento, virado do avesso,
confesso e sabido torto desde orto,
porto inseguro do que tenho em apreço,
careço daquilo que não o faz natimorto.


asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, quarta feira, quymzº dia do segº mez d este anno de MMVI

6.2.06

cajuína - caetano veloso

E talvez se tenha se suicidado-se por isso mesmo, por ser demolidor d'estéticas n'onde outros procuravam construir/conquistar carreiras, os (já) ditos tropicalistas (Gil, Caetano & cia), Torquato se afastou de tudo e todos num mergulho solitário - solitarionauta e seus procedimentos suicidiocratas: deixou-se sem resposta a pergunta aqu' inscrita...

Existirmos: a que será que se destina?
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

2.2.06

torquatame.
ferreirame & cabralame
pessoalmente me chamie algo de pound.
haroldame e augustame, pois já ia eliotizar
pitgnatariamente os véus da música:
velosa, buarqua, antunas, nascimenta e gilada
barnabélica, paschoaliana, gismontiana
moraeseira, gilberteira, toquinhada,
na cartola da pixinga, bandolin, pandeiro & viola
ahora eh aghora...

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmta feira, segº dia do segº mez d este anno de 2oo6

17.1.06

Josep D'Agustint

soy un pescador
de avanzada edad
y navego solo
solo por necesidad.

necesidad de estar
en total tranquilidad
pero sinto lo pesar
de una otra necesidad.

necessitat de tener
alguien para acariciar
pero tras de açò afecte
restes diversa cosa qu'estimar.

i si amar solo no és possible
i tota possibilitat és plena
soy adoncs un amante eteri
en una eteridat terrena.

Josep D'Agustint

10.1.06

A Educação pela Pedra - João Cabral de Melo Neto

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
[pela de dicção ela começa as aulas].
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra [de fora para dentro,
Cartilha muda], para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
[de dentro para fora, e pré-didática].
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

25.12.05

A Imperfeição é o Ápice - Yves Bonnefoy
tradução: eduardo miranda

Havia aquele que era obrigado a destruir e destruir e destruir,
Havia também aquele para qual a redenção era apenas um preço.

Arruinar a face nua que ganha o mármore,
Forjar toda a forma, toda a beleza.

Amar a perfeição por ser ela o limiar,
Mas negá-la ao conhecê-la, esquecê-la morta,

A imperfeição é o ápice. A imperfeição é o ápice.

* * *

L'imperfection est la cime - Yves Bonnefoy

Il y avait qu'il fallait détruire et détruire et détruire,

il y avait que le salut n'est qu'à ce prix.

Ruiner la face nue qui monte dans le marbre,
Materler toute forme toute beauté.

Aimer la perfection parce qu'elle est le seuil,
Mais la nier sitôt connue, l'oublier morte,

L'imperfection est la cime. L'imperfection est la cime.