16.10.11

A Adega de Edgar



Já era tarde, mas mesmo assim Edgar resolveu abrir outra garrafa de vinho. Costumava dizer que o vinho vinha na dose certa para a pessoa, em garrafas de 750 mililitros. Dizia isso para justificar o fato de que, ao abrir uma garrafa, Edgar a terminava, sem problema algum. E ainda ficava bem... seus amigos é que ficavam impressionados e sempre comentavam, "Nossa Edgar, você tomou a garrafa todinha!" "Claro, ela vem na dose certa...", respondia. Já houvera ocasiões em que sozinho entornara 2 garrafas... em outras ocasiões - mais raras, é verdade - Edgar entornara três! Um recorde, se é que podemos chamar de recorde, já que Edgar particularmente não se interessava por isso.

Levantou-se com dificuldade do sofá, derrubando o controle remoto do DVD, que ao cair no chão, acabou por pausar o filme que Edgar assistia, "Encruzilhada de Bestas Humanas", de Rainer Werner Fassbinder. Edgar comprara este filme por recomendação de um falecido amigo escritor, Dario... Dario cometeu sucídio dias após ter assistido ao filme. Antes, porém comentara sobre uma lenda urbana sobre um casal cuja garota havia matado o namorado, fanático por Fassbinder, após uma sessão desse filme... segundo Dario, saira na imprensa na época, Laura e Gabriel, mas Edgar não se lembrava. Na verdade Edgar não se interessava muito por cinema, mas depois do suicídio do amigo desenvolveu uma fixação por suicídios e suas causas, tentando entender o que passa na cabeça de um suicida. Por isso comprara o Encruzilhada...

Sacou do saca-rolhas, daqueles antigos que só garçons em bodegas de vinho usam. Detestava os saca-rolhas encrementados, que você apoia a garrafa sob eles e só abaixa o sacador... pronto, a rolha é mecanicamente arrancada numa precisão indiferente. Não Edgar, um verdadeiro apreciador de vinhos! Essas coisas não passam de bugigangas para novatos, coisa da moda, dizia. Como tudo no mundo, consumir vinho também acabou por virar moda entre a classe média em ascenção, e cada um precisava, desesperadamente, apreciar mais do que o outro, e para isso gastavam seu dinheiro sem valor em saca-rolhas maiores e mais sofisticados, em vistosos coolers, no maiores e mais sofisticados gabinetes de armazenamento... é a era do amadorismo, dizia Edgar! Hoje em dia, todo mundo pode comprar uma máquina fotográfica e brincar de fotógrafo artístico! Ou gravar um CD, fazer um filme... Youtube, MySpace, Facebok, essa merda toda! Mas não Edgar. Edgar não era destes, e preferia investir seu valioso dinheiro em vinhos de qualidade, baseado em suas incansáveis pesquisas e leituras - o verdadeiro caminho para o conhecimento. Edgar acompanhava anualmente o desenvolver das safras francesas, nas regiões e terroirs de sua preferência. Para cada região tinha seus preferidos, em Côtes du Rhône, por exemplo, Edgar gostava do norte do Rhône, Côte-Rôtie e Hermitage; em Beaujolais, gostava de Fleurie; em Bordeaux, preferia os vinhedos situados ao lado esquerdo do Rio Gironda, rodeado por largas faixas de terra e florestas coníferas, que dão um efeito moderado ao clima marítimo da área; em Burgundy, sem dúvida era Chablis para os brancos, e Côte de Nuits, com seus pinot noirs fabulosos! Edgar também apreciava os vinhos italianos, principalmente os Amarones della Valpolicella, Barolos, Brunellos super toscanos, sem deixar de lado os espanhóis de Priorat, Navarra, Rioja e Ribera del Duero, e também os portugueses do Douro e Alentejo.

Baseados nestas informações todas, poderíamos dizer que Edgar era um apreciador de vinhos do velho mundo, e estaríamos corretos, mas o que não poderíamos dizer é que Edgar nunca se interessara pelo novo mundo. Edgar já esteve em feiras vinículas e gastronômicas na Argentina, no Chile, nos EUA, na África do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia. Há coisas de qualidade, reconhecia, mas faltava algo... tempo, talvez.

Convêm dizer que, depois da primeira garrafa, o controle de qualidade de Edgar ficava prejudicado. Não só para o vinho, mas para tudo. Experiente bebedor que era, Edgar sabia que depois da primeira garrafa - geralmente um belo vinho - a seguinte deveria ser de qualidade inferior. Neste caso, as seguintes... O que Edgar buscava na quarta garrafa já não encontrara na terceira e tampouco na segunda! Não tinha mais nada a ver com apreciação de vinhos - era pura bebedeira!

Edgar se levantara para pegar o saca-rolhas antes memso de selecionar o vinho. Munido do saca-rolhas percebeu que lhe faltava a garrafa. Sentiu-se tolo, sorriu para si mesmo e caminhou em direção ao seu gabinete que comportava a consideráveis 120 garrafas de vinho. Por vezes Edgar se questionava se não era pequeno demais o gabinete. Pegou-se pesquisando gabinetes de 300, 500 garrafas, mas logo desistiu... algo dentro dele dizia para não comprar.

Cambaleante, Edgar abriu a porta do gabinete para horrorizado constatar que só lhe restava uma garrafa de vinho! Espantado e incrédulo - jurava que o gabinete estava com mais da metade, apenas uma garrafa atrás - e sem saber descrever exatamente o que sentia, Edgar pega a garrafa e tenta ler o rótulo, mas não acredita no que vê... ou pensa que vê: o lendário Château d'Yquem 1811, a chamada Safra do Cometa! Uma raridade para colecionadores!

Ranzinza que era quando ficava um pouco alcoolizado, Edgar pragueja, "Mas que merda... vinho branco de sobremesa?!?". Além de não ser muito inteligente abrir um vinho bom depois da segunda garrafa, muito menos inteligente seria abrir um vinho cotado a 75.000 libras esterlinas - considerado o vinho mais caro do mundo! Edgar sabia não ter esse vinho em sua adega, mas atônito que estava, isso era apenas um detalhe.

Decidido a abrir a quarta garrafa de vinho, Edgar vai até o mercado da esquina e constata que a sessão de bebidas estava fechada - uma das muitas hipocrisias nos mecados locais, fechar a sessão de bebidas após as 22:30.

Volta pra casa sem opção a não ser abrir o Château d'Yquem, que conscientemente sabe não possuir! Na primeira tentativa de sacar a rolha, ela praticamente se desfaz! Edgar acaba de empurrá-la garrafa adentro, e munido de um coador entorna uma taça generosa do vinho, para constatar que o mesmo estava estragado!

Alucinado, e agora com uma necessidade alcoólica que já se tornou molecular, Edgar começa a revirar todas prateleiras em busca de algo alcoólico - qualquer coisa - mas nada! Nada restara, a não ser... Edgar corre para a área de serviço do apartamento e revira desesperadamente a dispensa que fica debaixo do tanque. "Onde... onde estará aquele litro de Zulu..."

Com o litro de álcool nas mãos, Edgar olha para os lados, sem jeito, como se quisesse se desculpar pelo seu ato... mas Edgar morava só, e aquela era só mais uma daquelas noites intermináveis das suas semanas, em que costumava alcoolizar-se na tentativa de acelerar os tiques e os taques do maldito relógio... sempre em vão!

Edgar corre para a cozinha aos cambaleios, protegendo o litro de Zulu como se sua vida dependesse dele. Pega um copo, dispensa água e gelo, despeja uma boa dose do álcool e o entorna! Faz uma careta de quem não gostou mas repete a dose uma, duas, três vezes!

* * *

Dona Marluce, a vizinha do 203, acorda de repente com um grito horrível vindo do apartamento ao lado - "É do apartamento do seu Edgar!" Veste sua camisola e quando abre a porta do corredor vê Juvenilda, a empregada de Edgar, passar correndo, ainda aos gritos!

Dona Marluce entra no apartamento de Edgar e depara com a cena: Edgar caído no chão da sala, a boca espumada, e uma garrafa de veneno de rato nas mãos. A porta da adega estava escancarada, e 83 garrafas de vinho estavam espalhadas pelo chão da sala. Ao lado de Edgar, 6 garrafas de vinho, 5 vazias e uma aberta, faltando apenas uma taça.

Dona Marluce pacientemente transfere as 83 garrafas para o seu apartamento. Antes de se retirar, senta-se no sofa, pega a taça abandonada praticamente cheia, olha contra a luz através do vinho branco e licoroso... pega a garrafa quase cheia e lê em voz alta, "Château d'Yquem, Lur-Saluces, 1811". Pensativa, dona Marluce matuta com seus botões, Chatô di quem? Saluce? Uai, será qui é daquela minha colega lá di Minas?" Dona Marluce dá um longo gole no vinho com o qual acredita ter algum tipo de ligação, e comenta, "Ô trem bão... docin, docin, esse vinzin!" Mete-o debaixo do braço e deixa a cena.

29.9.11

quashelênico

http://greekartists-yannisstavrou.blogspot.com/

um verbo ainda que grego

azul
céu    azul
mar                     azul
barco                                   azul
pra lá pra cá pra lá pra cá
pra cima pra baixo pra cima pra baixo
vira vira barco vira sacode sacode barco sacode
roda roda tudo roda tudo roda roda roda

AtenasPiraeusMykolosSantoriniinirotnaSsolokyMsueariPsanetA

roda roda tudo roda tudo roda roda roda
vira vira barco vira sacode sacode barco sacode
pra cima pra baixo pra cima pra baixo
pra lá pra cá pra lá pra cá
barco                                   azul
mar                     azul
céu    azul
αζoυλ

5.7.11

Uma homenagem a Mário Chamie

O Tolo e o Sábio

O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.

Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.

Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.

Mário Chamie lançou seu primeiro livro, "Espaço Inaugural", em 1955. Em 1962, lançou "Lavra, Lavra", livro fundador da poesia-práxis e vencedor do Prêmio Jabuti. Entre 1979 e 1983, Chamie foi secretário municipal de Cultura e foi um dos responsáveis pela criação do Centro Cultural São Paulo e da Pinacoteca do Estado. Ultimamente lecionava na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e também era locutor do programa "50 por 1", um programa de viagens exibido pela Rede Record e apresentado por Álvaro Garnero. Chamie morreu às 9h deste domingo no Hospital Oswaldo Cruz.

22.2.11

22022011

vinte onze, vinte onze, vinte onze,
tanto vai e vem que nem sabes donde
veio, e tudo com menos de dois vinténs e meio,
ainda mais depois que teu papel cair do céu, pronde vais?

trinta e quinze, trinta e quinze, trinta e quinze
és o único que a barba de branco tinge
dos teus bens se desfaz - pra você parabéns,
nesta data desquerida ou desesperada, tanto faz

e se de esperar já te cansas, ressabiado
saibas que estás mais perto, aliviado
e se teus círios se apagam mais rápido,
e teu caminhar te quer mais plácido
vinte onze, vinte onze, vinte onze.
Donde veio e pronde vais?
Vão te ver nunca mais?

6.2.11

um Yeats...


(...)
Lance um olhar frio
Sobre a vida, sobre a morte.
E releve, cavaleiro!

(...)
Cast a cold eye
On life, on death.
Horseman, pass by!

3.11.10

Um Leminski, assim, à toa...

Land, Sea, Sky I - 16" x 16", Oil on canvas. M. Marcus A. Lopés, 2008

se
nem
for
terra

se
trans
for
mar

20.10.10

20102010


01020101
2                01020101
2        0102010        1
20102010               1
20102010

10.10.10

101010


101010
0101010
00101010 *
00101011 +
00101001 )

01100101 e
01100100 d
01110101 u

20.9.10

20092010

20092010 é hoje, nesta data neste "pattern"
20082011 que nos dois últimos anos venho
20072012 já há três hesitando, pensar pensando
20062013 se ainda há pelo menos mais quatro
20052014 de trabalho ou se em 5 ou 6 estarei
20042015 já fazendo o que vim aqui fazer...

12.9.10

os mal-vindos

Patricia A. Smith - "The Royal Treatment" 22" x 34" Acrylic on Bamboo Mat

Mandou eu me aprumar e tomar o meu rumo
Mandou eu apagar o cigarro que eu nem fumo
Mandou eu voltar sem saber se eu estava indo
Nunca é convidado mas se acha bem-vindo
Não viu e nem ouiviu, não sabe quem foi
Pela minha graça quer dar nome ao boi
Olha pro lado e aponta o dedo sorrindo
Não sabe de nada, mas vive  se exibindo
Tem o carro mais bacana, a mulher a mais gostosa
O dinheiro mais limpo, a merda mais cheirosa
Teu espelho tá quebrado e pensa que está tinindo
Assim que ele chega todos vão logo saindo
Chega no meio do papo e quer puxar assunto
Não sabe quem morreu mas quer velar o defunto
Diz que já fez, que já leu e que tudo conhece
É só papo furado, até o nome da mãe ele esquece
Numa realidade deturpada ele vive desconectado
Preste atenção Fulano, que vou te passar um recado
Antes mesmo de despertar para o seu eterno domingo,
Antes mesmo de chegar, considere-se mal-vindo.

Findo.

13.8.10

Yo no creo pero...


Segura a barra
A bruxa está solta
Não dê moleza
Ela pode estar na mesa

O dia inteiro
Até mesmo no banheiro
Ou de pijama
Dormindo na sua cama

Yo no creo en brujas
Pero que las hay, las hay

Yo no creo en brujas
Pero que las hay, las hay...

18.5.10

O Brinquedo Novo Do Filho Do Rei

Photo by Craig Heimburger, travelvice.com

Uma Saga Capitalista Através dos Séculos

Séc. XV

Quando veio ao mundo o filho do Rei
já veio dizendo ao que veio.
Trazia coriscos invisíveis nos olhos
e puas daninhas na língua,
sem corpo, face ou alma…


Séc. XVI

“Aonde estávamos quando nasceu o filho do Rei?”
“Não estávamos cuidando dos brotos de arroz,
que antes mesmo do nascimento do filho do Rei já não tínhamos terra”
“Então, o quê fazíamos quando nasceu o filho do Rei?”
“Íamos devagar, cansados, com fome e com sede,
e não chegamos a tempo de homenagear o nascimento do filho do Rei”
“Não há perdão nos negócios do Reino… é por isso que nos mataram.”

Se já eram fios de outros que trançávamos
e sementes de outros que plantávamos
(que plantações terão crescido? Que peças terão costurado?)
nosso desgosto já era por demais amargo,
ainda assim voltamos para nossa terra…
voltamos sob nossa terra, sob o domínio do Rei.


Séc. XVII

Quando pequeno, brincávamos no portão de casa,
nas terras que eram de meu pai.
Tanto brincávamos que não dava tempo de crescer a grama.
Brincávamos ao dia, brincávamos à noite,
e foi numa noite de alta lua
que pai partiu para o Reino, sob ordem do Rei.
Só sabia que era a trabalho, nada mais —
e trabalho pai não temia.

Depois foi a vez de mãe… partiu em busca de pai.
Pedi que mandasse notícia quando o encontrasse…
Minha dor em ver o capim crescer no portão
lembrando os anos avançados…
o Reino chegando cada vez mais perto,
quase invadindo meu coração, e sem trazer notícias.
Então, parti, nu, para o Reino, suplicar ao Rei:
“Amontoa meus ossos e os que me pertencem
num sepulcro junto à árvore da minha casa e grave:
‘Família sem nome e sem fortuna’ e ergue nele
o arado comum a todos os meus amigos.”
Mas o Rei não tinha corpo, face ou alma
e nossos ossos (não-polidos) não foram amontoados,
e amarelaram de tanto outono.

E algumas fogueiras se ergueram,
iluminando, com suas chamas,
alguns corpos, algumas faces, algumas almas…


Séc. XVIII

Creio que a vida será mais fácil
agora que não preciso galgar árvores
para vigiar a terra de bárbaros.
Toda terra e toda posse é presente nosso ao filho do Rei
(embora não daríamos nossa terras e nossas posses ao filho do Rei).

Nosso espírito repleto de afição não teve escolha…
nossos amigos já não conversam, não pedem mais o arado,
não falam sobre a plantação (que não são deles),
não conversam com suas mulheres (que às vezes são deles),
não conversam mais sobre nada (isto sim lhes pertence).

Algumas fogueiras (aquelas) ainda queimavam…
fracas labaredas aqui, outras mais fracas ali,
iluminando — embora menos — com suas chamas
poucos corpos, poucas faces, poucas almas…

Todos no Reino estavam ficando sem corpo, face ou alma.


Séc. XIX

O sol parece não querer brilhar mais no Reino,
e as trevas se tornam mais intensas que a luz.
O Rei mandou comprar um sol para seu filho,
e os privilegiados desfrutam o calor deste dinheiro.
Dizem que este é o único sol existente, por isso não brilha mais no campo;
terra morta separa o campo do castelo do Rei,
e é só isto que nos sobrou: invejamos nossos animais
que não sabem sofrer com o coração.
“Somos tuas almas também, não se desesperem!
Não há dor que não seja pouca ao filho do Rei”

Mas volumosa massa não pode sucumbir
e a intensidade desta fogueira e suas brasas, reerguem,
por braços fortes, a luz, que ameaça voltar e iluminar todo o Reino…
mas é impenetrável o castelo, onde os privilegiados
ainda cerram seus olhos fundos entre velas indolentes.


Séc. XX

Não contente com o sol, pela sua grandeza,
quis também a Terra, nossa alteza,
e esforços não foram medidos para que ela toda
coubesse no baú de brinquedos do filho do Rei.

E de posse do novo brinquedo, gargalhava o filho do Rei,
diminuindo terras, aumentando mares, queimando florestas,
em busca de novas emoções no seu brinquedo novo.
Peças caídas, afogadas e queimadas,
o que representam frente ao divertimento do filho do Rei?

“Não deve existir união (já que a Real não existe).
Não deve haver diversão (já que a Real é enfadonha).
Vizinhos e amigos, jamais (o filho do Rei não precisa disso).
Tudo deve girar em torno do Trono (expressão máxima da boa-ganhança).”

E pessoas eram tratadas como animais,
e na queda de uns, muitos haviam para se levantar.
Animais, pessoas e coisas…
nada era algo enquanto durasse o jogo do filho do Rei.

As trombetas anunciavam,
e o povo entorpecido espalhava a notícia:
“Submetam-se ao filho do Rei, ele é a esperança.
Esqueçam seus valores, suas posses, seus sentimentos
e abracem a vontade do filho do Rei.”

Mas o Reino se tornou maior que a esperança,
e à porta de todos não bateu a boa-venturança,
e os portões do palácio se fecharam (dando a impressão de abandono).
Só uma luz, no alto da torre, mantinha-se acesa…
o filho do Rei continuava seus jogos
cada vez mais sozinho… o grande vencedor.
Os outros? Meras peças de estratégia…
peões, cavalos, bispos e torres tombados em torno do Rei.

E o filho do Rei acumulou suas vontades, suas malícias, suas bonanças…
Mas não havia o que fazer com elas,
e as coisas se tornaram difíceis e custosas,
e o Rei e seu filho ficaram sozinhos,
com o mundo prostrado aos pés do trono.

E daquela fogueira que só brasa restou,
um vento de tão forte fúria labaredas favoreou
que logo, em chamas intensas se tornaram,
e todo o Reino já morto, o palácio, o Rei e seu filho enfermo
foram envolvidos pelo fogo daquele inferno.


Séc. XXI

Agora sim, o nada se consolidou… apenas cinzas,
levadas pra cá e pra lá pelo vento calmo.
Foram muitos anos até que a primeira planta brotasse,
não se sabe de onde… muito menos de onde soergueu aquele homem,
já com uma enxada na mão a mexer a terra, e depois outro homem, e outro…
e cresceram plantas, ergueram-se animais, ergueram-se gente,
construindo casebres, juntando-se em aldeias,
vivendo da terra, da água e do ar.

Até que um desinfeliz oferece trocar um porco por três enxadas…

29.4.10

Get 'Em Out By Friday


(Banks/Collins/Gabriel/Hackett/Rutherford)

[John Pebble of Styx Enterprises]

"Get 'em out by Friday!
You don't get paid till the last one's well on his way.
Get 'em out by Friday!
It's important that we keep to schedule, there must be no delay."


[Mark Hall of Styx Enterprises (otherwise known as "The Winkler")]

"I represent a firm of gentlemen who recently purchased this
house and all the others in the road,
In the interest of humanity we've found a better place for you
to go, go-woh, go-woh"


[Mrs. Barrow (a tenant)]

"Oh no, this I can't believe,
Oh Mary, they're asking us to leave."


[Mr. Pebble]

"Get 'em out by Friday!
I've told you before, 's good many gone if we let them stay.
And if it isn't easy,
You can squeeze a little grease and our troubles will soon run away."


[Mrs. Barrow]

"After all this time, they ask us to leave,
And I told them we could pay double the rent.
I don't know why it seemed so funny,
Seeing as how they'd take more money.
The winkler called again, he came here this morning,
With four hundred pounds and a photograph of the place he has found.
A block of flats with central heating.
I think we're going to find it hard."


[Mr. Pebble]

"Now we've got them!
I've always said that cash cash cash can do anything well.
Work can be rewarding
When a flash of intuition is a gift that helps you
excel-sell-sell-sell."


[Mr. Hall]

"Here we are in Harlow New Town, did you recognise your block
across the square, over there,
Sadly since last time we spoke, we've found we've had to raise
the rent again,
just a bit."


[Mrs. Barrow]

"Oh no, this I can't believe
Oh Mary, and we agreed to leave."


(a passage of time)

[18/9/2012 T.V. Flash on all Dial-A-Program Services]

This is an announcement from Genetic Control:
"It is my sad duty to inform you of a four foot restriction on
humanoid height."


[Extract from coversation of Joe Ordinary in Local Puborama]

"I hear the directors of Genetic Control have been buying all the
properties that have recently been sold, taking risks oh so bold.
It's said now that people will be shorter in height,
they can fit twice as many in the same building site.
(they say it's alright),
Beginning with the tenants of the town of Harlow,
in the interest of humanity, they've been told they must go,
told they must go-go-go-go."


[Sir John De Pebble of United Blacksprings International]

"I think I've fixed a new deal
A dozen properties - we'll buy at five and sell at thirty four,
Some are still inhabited,
It's time to send the winkler to see them,
he'll have to work some more."


[Memo from Satin Peter of Rock Development Ltd.]

With land in your hand, you'll be happy on earth
Then invest in the Church for your heaven.

23.4.10

Bodas de Madeira

é o que dizem de 5 anos de casado.


5 anos... 12 anos... 22 anos...
nos conhecemos em 1988, namoramos em 1998, casamos em 2005
e ainda tenho aquelas sensações dúbias:
conheço-a há muito, muito mais tempo,
parece que por toda a minha vida a conheci,
e ainda assim me pego descobrindo coisas novas
de quando em vez!

Parabéns para nós, amorzinho...

9.4.10

vintedez

vintedez, vintedez, vintedez, vintedez,
e nessa vamos, de uma todas por vez
eu não me fiz, mas ajudei outra ou vez
vintedez, vintedez, vintedez, vintedez,
até agora sem meter as mãos pelos pés

não foi eu, não foi eu, não foi eu, não foi eu,
ficaram navios a ver com o vigário do conto
ela não se engana, depois o samba primeiro eu
quem tem Roma vaia a boca; de Minerva do voto:
falei mas não fui eu, não fui eu, não fui eu.

3.3.10

Vem pro Piauí você também, vem!


Quando eu crescer, quero morar no Piauí,
não pra ser porteiro, motorista, recepcionista, ou gari!
Com custo de vida baixo, mais baixo que o daqui,
quero salário bom sem fazer quase nada, tem vaga aí?
Quando eu crescer, quero morar no Piauí!

Só tem que ser conhecido de algum barão,
e se for parente não precisa nem bater cartão
serve até amigo do vizinho da quenga do irmão
vou ter direito à mordomias e salário bom.
Só tem que ser conhecido de algum barão!

22.2.10

22022010

Chinese Numbers - Lauren Luna
se de contar anos já me confundo
mundo impuro & de números composto
supostos seres que não contam mas fingem
cingem as ramas & tramas de desafetos
ereto cabresto em pau-a-pique de contaridade
contrariedade de quem pode ou não pode o que
desfazer ou fazer sem perguntar o quanto
tanto sim ou tanto não se tem de bom e força
da morsa que tanto aperta quanto afrouxa
babalorixá de mim mesmo, desde que nasceste
embora não parecesse, tão vivo ou tão morto
tampouco mais ou menos torto, não faz diferença...
e ainda assim tens muito o que melhorar... ah se tens!
este teu jeito cangaceiro de discurso-peixeira
ainda arauto galgo de coisas & sofrimentos
+ de tudo, então tu, esmo esborro, fidalgo dalgo incerto,
valgo de tu mesmo, quinta parte ou sesmo do que pretendias inteiro,
sendeiro oscuro & ebscuro, danado de errado e bom, que não aprendeu
a contar de dez a um, mas de vez por todas & que sempre já soube:
só mais um... só mais um... para sempre só mais um...
aí solitarionauta partes em busca desafreada a caçadas insanas
deshumanas e deshalmadas por todos os futuros hontems e passados ojes
de todas as almas (inumanas) que poçã hexistir, fossa himunda
de todos os apegos e (de)formações: todamágoa, todorancor, todaraiva
- aquela mesma que nos mata em cada dia dos nossos dias -
e a palavra cotidiana desprezada, que embora já seja palavra apenas,
é da boca pra dentro, e inunda de boa vontade os interiores,
e como sabemos, de boa vontade em boa vontade se vai ao longe,
embora não adiante muito o bonde...

parabéns pra você.

8.12.09

revendo-a


Ela já tem 50 anos... quem diria? Nem mesmo eu nos meus 44 (quase) poderia dizer, mas sim, 50, e eu também sei que seus cabelos seriam um pouco grisalhos se ela não os pintasse, mas ela o faz, numa cor negra tão natural, e que vai suavizando o tom ao chegar perto das raízes, que dá um toque diferente que eu adoro, e já se tornou ela, e lhe faz muito bem!

Cheguei de Dublin num vôo conturbado, perdi a conexão em Paris, perdi a cirurgia - queria estar lá logo que ela acordasse - e tive que vê-la só no dia seguinte. Ao entrar no quarto ela estava na cama, com a camisola do hospital e agulhas no braço... era a primeia vez que eu a via nos últimos 20 dias, e é desnecessário dizer que ela estava mais linda do que nunca... para mim, ela sempre está mais linda do que nunca.

É sempre assim, a cada afastamento, o reencontro nos mostra uma beleza... não diria maior, mas sim mais significativa. E creio que isso se deva ao nosso envelhecimento; se há algo bom em envelhecer, é isso, nossa profundidade, nosso repositório de sentimentos passa a absorver mais e melhor tudo o que sentimos.

E talvez seja essa profundidade que me faz enxergar em seu rosto sua idade e sua juventude, harmoniosa e graciosamente dividindo o mesmo rosto, ambas devotas à jovem que ela foi e à mulher que ela se tornou, se impôs no tempo...

Sempre que nos reencontramos me emociono, mas acho que nunca me emocionei como hoje. Eu já estava mais descansado da viagem, mas o impacto do vôo, o fuso, os atrasos... algo ou tudo ainda causavam efeito sobre mim, sobre meus ombros... como uma densa e pesada ansiedade... ela sorri, eu me aproximo, seguro sua mão e a beijo. De alguma maneira sou remetido ao passado, sem saber exatamente onde, mas aquela densa ansiedade se transforma numa doce euforia, como se estivesse me apaixonando, naquele momento, novamente e pela primeira vez, pela mesma mulher que tantas vezes já me apaixonara...

Me deixo cair na poltrona ao lado da cama, e me deixo aliviar, exaurir... a sensação de chegar onde sempre quis estar, e este lugar não é um lugar... muito além do tempo e do espaço, este lugar é um alguém... um estado de espírito que estrapola a própria dialética da existência...

20.11.09

Pérola Negra - Luis Melodia


Tente passar pelo que estou passando
Tente apagar este teu novo engano
Tente me amar pois estou de amando
Baby, te amo, bem sei que te amo

Tente usar a roupa que eu estou usando
Tente esquecer eme que ano estamos
Arranje algum sangue, escreva num pano
Pérola Negra, te amo, te amo

Rasgue a camisa, enxugue meu pranto
Como prova de amor mostre teu novo canto
Escreva num pano em palavras gigantes
Pérola Negra, te amo, te amo

Tente entender tudo mais sobre o sexo
Peça meu livro querendo eu te empresto
Se intere da coisa sem haver engano
Baby, te amo, nem sei se te amo

10.9.09

o filho da puta


a puta que pariu
o filho da puta
era puta que fodeu
um fodão do esquadrão
que enfiou a cara de pó no cú
da puta e o pau pelado na boceta
da puta e não quis nem saber
do filho da puta do filho
que também era dele e deu
porrada na puta e no filho da puta
do filho dele e ficou com o pau
podre de gonorréia e síflis da puta
que tinha outros filhos
também filhos do filho da puta

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qvartª, dezº-octº dia do dezº-prjmerº mez d este anno de MMIX