2.11.12
senão de perda, de ...
É de perda, esse Natal
e igual já vi, em dezembro de 88
afoito, em minha juventude
amiúde ocupado com coisas menores
dores só de amores, embora perdas fossem,
nem de perto como as perdas
da vida inteira - dormia minha avó,
agora para sempre, enquanto minha mãe
se despencava por dentro e por fora...
agora entendo a perda da vida inteira.
29.5.12
Ciao Souza
Falei da passagem lá em TUDA. Aliás foi em TUDA que publiquei muita coisa inédita de Souzalopes. Creio que as últimas coisas, antes de seu afastamento (?) dos (alguns) amigos. Motivos deve ter tido... sabeselá!
Meu caro Souza, que a terra lhe seja leve, companheiro!
Meu caro Souza, que a terra lhe seja leve, companheiro!
Soulopiana
pessonha boa pessonha
pessonha do peito pessonha
eu não falo do verbo peçonha
peçonha que falo pessonha
é peçoa pessonha que peçonha
peçonha do peito peçonha
peçonha boa peçonha
pessonha que bem peçonha
peçonha pessoña e pessonha
mais que qualquer peçoa
como já dizia o poeta
sepolazuos in letras invertidas:
peçonha carcome pessoa
pessonha boa pessonha
pessonha do peito pessonha
eu não falo do verbo peçonha
peçonha que falo pessonha
é peçoa pessonha que peçonha
peçonha do peito peçonha
peçonha boa peçonha
pessonha que bem peçonha
peçonha pessoña e pessonha
mais que qualquer peçoa
como já dizia o poeta
sepolazuos in letras invertidas:
peçonha carcome pessoa
2.5.12
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... cheguei sim, sem mesmo saber ao certo
de onde, nem mesmo pra onde havia ido -
ido ou partido? pois partido já ando, há muito,
em migalhas, pequenos pedaços de vidas -
não lheias, alheias - que não escolhi, herdei
só herdei. e como todo homem que herda,
quando herda, herda com a honra dos homens
mesmo sabendo do risco de se perder no caminho...
de onde, nem mesmo pra onde havia ido -
ido ou partido? pois partido já ando, há muito,
em migalhas, pequenos pedaços de vidas -
não lheias, alheias - que não escolhi, herdei
só herdei. e como todo homem que herda,
quando herda, herda com a honra dos homens
mesmo sabendo do risco de se perder no caminho...
Como já dizia José Américo de Almeida:
"Rejubila-me a alma repatriada. A memória pode falhar, mas no coração não há nada esquecido. Volto. Voltar é uma forma de renascer. Ninguém se perde na volta".
9.3.12
Breves São os Anos

No breve número de doze meses
O ano passa, e breves são os anos,
Poucos a vida dura.
Que são doze ou sessenta na floresta
Dos números, e quanto pouco falta
Para o fim do futuro!
Dois terços já, tão rápido, do curso
Que me é imposto correr descendo, passo.
Apresso, e breve acabo.
Dado em declive deixo, e invito apresso
O moribundo passo.
Ricardo Reis, in "Odes"
Heterônimo de Fernando Pessoa
22.2.12
22022012
pois é, edu, chegou aquele dia again,
importante pra você & outra meia-dúzia-e-meia, mais quem?
nadalém dum ou outro, farinhas do mesmo saco, gemas do mesmo ovo,
mas o importante mesmo é que estás aqui, cá estás de novo!
a contar anos-círios, que se iluminadaos ou não nem importa tanto,
tanto que já perdeste a conta, e assim nem te dás conta
da rima pobre que acabaste de cometer - que fazer?
babalorixá agora de bastão passado - embora assumido, não herdado,
finalmente nasceste noutrem de nome joão... ah joão,
mais vivo que tú, mais nobre que um cão, tua chance de continuação
tampouco mais ou menos torto, não faz diferença...
desde nascença já te pertence, no balanço correto, quem dera,
sem eira nem beira, até parar a contagem - é tudo cabeça -
diferente de tú, esmo esborro, fidalgo incrédulo,
valgo dalgo danado de errado ou de bom, que não aprenderá jamais,
& entorta & sufoca & inibe & abafa todo discurso tosco,
só mais uma vez, para sempre só mais uma vez...
aí vais de novo & novamente, solitário-nauta,
na mesma busca desafreada, por entre os futuros hontems e os passados ojes
em todos os lugarem que possam existir, mesmo nas imundas fossas,
mesmo em todos os apegos, todas (de)formações: todamágoa, todorancor, todaraiva,
- aquela mesma que nos mata em cada dia dos nossos dias -
também lá não estão: a paz & a harmonia que procuras são únicas
e não vais achá-la assim tão fácil não, ah não vais não...
nem nas mais altas colunas da ordem e da desordem,
nem nas melhores barganhas entre a vida e a morte,
muito menos nos mais altos aléms dos tudos que te possam oferecer.
parabéns pra você.
assyno eduardo miranda,
d este porto seguro da jlha do Eire,
oje, qvartªfeira, vjgesºsegº dia do segº mez d este anno de MMXII
27.12.11
Jeremia não escrevia
Jeremia não escrevia
Jeremia não escrevia. Jeremia pouco lia e nada escrevia. Isso durante onze meses e 3 semanas do ano. Sabe-se lá o que acontecia com Jeremia que em épocas natalinas, mais precisamente na semana que antecedia o natal, se dava a escrever, compulsivamente! Embora possa parecer bom, para Jeremia era um tormento! Jeremia escrevia para por para fora... por para fora todo aquele sentimento que, de repente, brotava em seu peito, e que ele chamava de sentimento anti-natalino, que era o oposto do espírito de natal.
Quando criança, Jeremia perguntara ao pai porque não se chamava Jeremias, e o pai respondeu “Pruque tu é um só”.
Assim era o natal de Jeremia: onde as pessoas sentiam amor, Jeremia sentia ódio, onde as pessoas sentiam compaixão, Jeremia sentia desdém, onde as pessoas sentiam solidariedade, Jeremia sentia indiferença. Mas quem conhecia Jeremia sabia que ele era uma pessoa boa. Por onze mêses e três semanas do ano, Jeremia era um exemplo de amigo, colega, vizinho. Mas quando chegava aquela semana, Jeremia se transformava... ficava desesperançado, amargo, frio, indiferente, e enquanto as pessoas se confraternizavam, Jeremia se isolava. Se isolava e escrevia Jeremia. Compulsivamente.
De pequeno Jeremia não entendia muito das coisas. Um dia perguntou para mãe se o seu Manuel da padaria havia lhe batido. A mãe estranhou e disse que não, por quê? Jeremia disse que depois que seu Manuel chegou e entrou no quarto com mãe, mãe não parou de gritar. Naquele dia Jeremia aprendeu que voltar da escola mais cedo com dor de barriga significava uma surra.
Escrevia Jeremia, Jeremia escrevia. Toda aquela amargura, tristeza, desesperança... tudo ia na escrita de Jeremia, que não via a hora disso tudo acabar. Jeremia escrevia sobre a ganância das pessoas e sua conduta moral, sobre seu caráter, sua falsidade...
(...)Nos textos, Jeremia, que nunca escrevia, punha para fora essas coisas, coisas de pai, mãe e família, que não lembrava direito, pois depois que o pai havia se matado, Jeremia muito jovem, passara o resto da infância e adolescência de orfanato em orfanato... vários. Dos irmãos Jeremia não sabia – só sabia que cada um teve um destino diferente.
Mas se são de solidariedade os tempos, de compaixão e amor ao próximo, por que não realmente pregamos esses sentimentos? Por que ainda viramos as costas para um pedinte, para depois sentirmos pena? Se não adianta dar esmolas, esmolar também não vai fazê-lo nem mais nem menos miserável, ele provavelmente sabe disso, na própria pele! Mas aquele trocado pode salvar-lhe o dia – seja para um prato de comida, seja para um trago de pinga. Quem aí vai julgar?!? O que incomoda mesmo é a presença... ah, se pudéssemos simplesmente eliminá-los! Sim, a eliminação é possível, mas não como faz a polícia de certos Estados, e sim de maneira humana! E sua arma, camarada, é a consciência – igualmente toda a força e toda a fraqueza do homem. Por isso, enquanto estiver se empaturrando de perú e cerveja, não precisa pensar que tem gente remexendo o lixo e morrendo de fome, não... seria muita hipocrisia, e de hipocrisia a humanidade já está cheia. Quando estiver enchendo o rabo de perú, desejando saúde, paz, prosperidade e harmonia para os seus amados amigos e familiares, não precisa nem se esforçar muito... apenas sinta, de verdade, e carregue esses sentimentos ano afora – eu sei, é difícil, mas garanto que vai lhe doer menos...
Geralmente Jeremia queria ver o natal passar rápido, rasteiro, mas ultimamente a coisa vinha mudando, ano após ano! Jeremia percebia que quando escrevia, punha para fora sentimentos alheios aos outros, mas também percebia que, fora da época natalina, quando não escrevia, sentia sentimentos igualmente não compartilhados... E quando concientizou-se de que isso era mais penoso do que escrever, Jeremia deixou de querer que o natal não chegasse, para desejar que o natal não acabasse. Se ele pudesse, escreveria sem parar, numa espécie de manifesto sobre essa hipocrisia toda que alimenta as pessoas, e o próprio ciclo da vida.
Estranha figura era Jonatã, o pai de Jeremia. Não chorava, não sorria. De nada reclamava, e por ninguém sentia. Diziam que ficara assim por causa de Eleonora, mulher infiel. Não teve coragem de largá-la por causa dos filhos Jacira, Jeremia, Jildete, Joel, Juvenal e Agripina. Talvez não tanto por causa de Agripina, filha bastarda, que mais bastarda ficou quando a mãe morreu dando a luz a ela. Culpa Agripina não tinha, mas na cabeça de Jonatã, a filha bastarda era sua única desculpa.
Embora Jeremia não tenha conseguido conspirar com o universo e fazer com que o natal não acabasse, conseguiu um trato melhor: manter aquela amargura, aquele desprezo, aquele ceticismo, pelo resto do ano dentro dele, e agora só escrevia Jeremia... enlouquecido, Jeremia não comia, não bebia, não falava, não dormia... Ficou conhecido como o louco que escrevia.
Quisera Jeremia que o que escrevia mudasse o que toda gente sentia, mas Jeremia sabia que não passava de utopia, e assim escrevia Jeremia, escrevia, e apenas escrevia...
23.12.11
Tá chegando...
Nem tão cedo nem tão tarde
Nunca fui de muito alarde
E todas essas luzes piscantes
Com seus glamores ofuscantes
No fundo, no fundo, me fazem mal...
Seria isso, enfim, o que chamam Natal?
Aperto de mão e tapinha nas costas?
E tudo na mesma merda, na mesma bosta?
Fazer o bem por dever não por querer?
Não fazer o mal por religião e não por convicção?
Pois doa a quem doer, e dói em mim também,
Morra quem morrer, que seja aqui ou no além.
Dinheiro não compra felicidade, nem sua nem alheia
É uma pena o espírito natalino não durar a vida inteira!
...
Nem tão tarde nem tão cedo, é sempre o mesmo enredo
Tenha um Natal mais consciencioso e menos consumista
Fora isso, muita, mas muita saúde, que o resto se conquista...
* * *
Veja também o espírito dos natais passados aqui.
16.10.11
A Adega de Edgar
Já era tarde, mas mesmo assim Edgar resolveu abrir outra garrafa de vinho. Costumava dizer que o vinho vinha na dose certa para a pessoa, em garrafas de 750 mililitros. Dizia isso para justificar o fato de que, ao abrir uma garrafa, Edgar a terminava, sem problema algum. E ainda ficava bem... seus amigos é que ficavam impressionados e sempre comentavam, "Nossa Edgar, você tomou a garrafa todinha!" "Claro, ela vem na dose certa...", respondia. Já houvera ocasiões em que sozinho entornara 2 garrafas... em outras ocasiões - mais raras, é verdade - Edgar entornara três! Um recorde, se é que podemos chamar de recorde, já que Edgar particularmente não se interessava por isso.
Levantou-se com dificuldade do sofá, derrubando o controle remoto do DVD, que ao cair no chão, acabou por pausar o filme que Edgar assistia, "Encruzilhada de Bestas Humanas", de Rainer Werner Fassbinder. Edgar comprara este filme por recomendação de um falecido amigo escritor, Dario... Dario cometeu sucídio dias após ter assistido ao filme. Antes, porém comentara sobre uma lenda urbana sobre um casal cuja garota havia matado o namorado, fanático por Fassbinder, após uma sessão desse filme... segundo Dario, saira na imprensa na época, Laura e Gabriel, mas Edgar não se lembrava. Na verdade Edgar não se interessava muito por cinema, mas depois do suicídio do amigo desenvolveu uma fixação por suicídios e suas causas, tentando entender o que passa na cabeça de um suicida. Por isso comprara o Encruzilhada...
Sacou do saca-rolhas, daqueles antigos que só garçons em bodegas de vinho usam. Detestava os saca-rolhas encrementados, que você apoia a garrafa sob eles e só abaixa o sacador... pronto, a rolha é mecanicamente arrancada numa precisão indiferente. Não Edgar, um verdadeiro apreciador de vinhos! Essas coisas não passam de bugigangas para novatos, coisa da moda, dizia. Como tudo no mundo, consumir vinho também acabou por virar moda entre a classe média em ascenção, e cada um precisava, desesperadamente, apreciar mais do que o outro, e para isso gastavam seu dinheiro sem valor em saca-rolhas maiores e mais sofisticados, em vistosos coolers, no maiores e mais sofisticados gabinetes de armazenamento... é a era do amadorismo, dizia Edgar! Hoje em dia, todo mundo pode comprar uma máquina fotográfica e brincar de fotógrafo artístico! Ou gravar um CD, fazer um filme... Youtube, MySpace, Facebok, essa merda toda! Mas não Edgar. Edgar não era destes, e preferia investir seu valioso dinheiro em vinhos de qualidade, baseado em suas incansáveis pesquisas e leituras - o verdadeiro caminho para o conhecimento. Edgar acompanhava anualmente o desenvolver das safras francesas, nas regiões e terroirs de sua preferência. Para cada região tinha seus preferidos, em Côtes du Rhône, por exemplo, Edgar gostava do norte do Rhône, Côte-Rôtie e Hermitage; em Beaujolais, gostava de Fleurie; em Bordeaux, preferia os vinhedos situados ao lado esquerdo do Rio Gironda, rodeado por largas faixas de terra e florestas coníferas, que dão um efeito moderado ao clima marítimo da área; em Burgundy, sem dúvida era Chablis para os brancos, e Côte de Nuits, com seus pinot noirs fabulosos! Edgar também apreciava os vinhos italianos, principalmente os Amarones della Valpolicella, Barolos, Brunellos super toscanos, sem deixar de lado os espanhóis de Priorat, Navarra, Rioja e Ribera del Duero, e também os portugueses do Douro e Alentejo.
Baseados nestas informações todas, poderíamos dizer que Edgar era um apreciador de vinhos do velho mundo, e estaríamos corretos, mas o que não poderíamos dizer é que Edgar nunca se interessara pelo novo mundo. Edgar já esteve em feiras vinículas e gastronômicas na Argentina, no Chile, nos EUA, na África do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia. Há coisas de qualidade, reconhecia, mas faltava algo... tempo, talvez.
Convêm dizer que, depois da primeira garrafa, o controle de qualidade de Edgar ficava prejudicado. Não só para o vinho, mas para tudo. Experiente bebedor que era, Edgar sabia que depois da primeira garrafa - geralmente um belo vinho - a seguinte deveria ser de qualidade inferior. Neste caso, as seguintes... O que Edgar buscava na quarta garrafa já não encontrara na terceira e tampouco na segunda! Não tinha mais nada a ver com apreciação de vinhos - era pura bebedeira!
Edgar se levantara para pegar o saca-rolhas antes memso de selecionar o vinho. Munido do saca-rolhas percebeu que lhe faltava a garrafa. Sentiu-se tolo, sorriu para si mesmo e caminhou em direção ao seu gabinete que comportava a consideráveis 120 garrafas de vinho. Por vezes Edgar se questionava se não era pequeno demais o gabinete. Pegou-se pesquisando gabinetes de 300, 500 garrafas, mas logo desistiu... algo dentro dele dizia para não comprar.
Cambaleante, Edgar abriu a porta do gabinete para horrorizado constatar que só lhe restava uma garrafa de vinho! Espantado e incrédulo - jurava que o gabinete estava com mais da metade, apenas uma garrafa atrás - e sem saber descrever exatamente o que sentia, Edgar pega a garrafa e tenta ler o rótulo, mas não acredita no que vê... ou pensa que vê: o lendário Château d'Yquem 1811, a chamada Safra do Cometa! Uma raridade para colecionadores!
Ranzinza que era quando ficava um pouco alcoolizado, Edgar pragueja, "Mas que merda... vinho branco de sobremesa?!?". Além de não ser muito inteligente abrir um vinho bom depois da segunda garrafa, muito menos inteligente seria abrir um vinho cotado a 75.000 libras esterlinas - considerado o vinho mais caro do mundo! Edgar sabia não ter esse vinho em sua adega, mas atônito que estava, isso era apenas um detalhe.
Decidido a abrir a quarta garrafa de vinho, Edgar vai até o mercado da esquina e constata que a sessão de bebidas estava fechada - uma das muitas hipocrisias nos mecados locais, fechar a sessão de bebidas após as 22:30.
Volta pra casa sem opção a não ser abrir o Château d'Yquem, que conscientemente sabe não possuir! Na primeira tentativa de sacar a rolha, ela praticamente se desfaz! Edgar acaba de empurrá-la garrafa adentro, e munido de um coador entorna uma taça generosa do vinho, para constatar que o mesmo estava estragado!
Alucinado, e agora com uma necessidade alcoólica que já se tornou molecular, Edgar começa a revirar todas prateleiras em busca de algo alcoólico - qualquer coisa - mas nada! Nada restara, a não ser... Edgar corre para a área de serviço do apartamento e revira desesperadamente a dispensa que fica debaixo do tanque. "Onde... onde estará aquele litro de Zulu..."
Com o litro de álcool nas mãos, Edgar olha para os lados, sem jeito, como se quisesse se desculpar pelo seu ato... mas Edgar morava só, e aquela era só mais uma daquelas noites intermináveis das suas semanas, em que costumava alcoolizar-se na tentativa de acelerar os tiques e os taques do maldito relógio... sempre em vão!
Edgar corre para a cozinha aos cambaleios, protegendo o litro de Zulu como se sua vida dependesse dele. Pega um copo, dispensa água e gelo, despeja uma boa dose do álcool e o entorna! Faz uma careta de quem não gostou mas repete a dose uma, duas, três vezes!
Dona Marluce, a vizinha do 203, acorda de repente com um grito horrível vindo do apartamento ao lado - "É do apartamento do seu Edgar!" Veste sua camisola e quando abre a porta do corredor vê Juvenilda, a empregada de Edgar, passar correndo, ainda aos gritos!
Dona Marluce entra no apartamento de Edgar e depara com a cena: Edgar caído no chão da sala, a boca espumada, e uma garrafa de veneno de rato nas mãos. A porta da adega estava escancarada, e 83 garrafas de vinho estavam espalhadas pelo chão da sala. Ao lado de Edgar, 6 garrafas de vinho, 5 vazias e uma aberta, faltando apenas uma taça.
Dona Marluce pacientemente transfere as 83 garrafas para o seu apartamento. Antes de se retirar, senta-se no sofa, pega a taça abandonada praticamente cheia, olha contra a luz através do vinho branco e licoroso... pega a garrafa quase cheia e lê em voz alta, "Château d'Yquem, Lur-Saluces, 1811". Pensativa, dona Marluce matuta com seus botões, Chatô di quem? Saluce? Uai, será qui é daquela minha colega lá di Minas?" Dona Marluce dá um longo gole no vinho com o qual acredita ter algum tipo de ligação, e comenta, "Ô trem bão... docin, docin, esse vinzin!" Mete-o debaixo do braço e deixa a cena.
Levantou-se com dificuldade do sofá, derrubando o controle remoto do DVD, que ao cair no chão, acabou por pausar o filme que Edgar assistia, "Encruzilhada de Bestas Humanas", de Rainer Werner Fassbinder. Edgar comprara este filme por recomendação de um falecido amigo escritor, Dario... Dario cometeu sucídio dias após ter assistido ao filme. Antes, porém comentara sobre uma lenda urbana sobre um casal cuja garota havia matado o namorado, fanático por Fassbinder, após uma sessão desse filme... segundo Dario, saira na imprensa na época, Laura e Gabriel, mas Edgar não se lembrava. Na verdade Edgar não se interessava muito por cinema, mas depois do suicídio do amigo desenvolveu uma fixação por suicídios e suas causas, tentando entender o que passa na cabeça de um suicida. Por isso comprara o Encruzilhada...
Sacou do saca-rolhas, daqueles antigos que só garçons em bodegas de vinho usam. Detestava os saca-rolhas encrementados, que você apoia a garrafa sob eles e só abaixa o sacador... pronto, a rolha é mecanicamente arrancada numa precisão indiferente. Não Edgar, um verdadeiro apreciador de vinhos! Essas coisas não passam de bugigangas para novatos, coisa da moda, dizia. Como tudo no mundo, consumir vinho também acabou por virar moda entre a classe média em ascenção, e cada um precisava, desesperadamente, apreciar mais do que o outro, e para isso gastavam seu dinheiro sem valor em saca-rolhas maiores e mais sofisticados, em vistosos coolers, no maiores e mais sofisticados gabinetes de armazenamento... é a era do amadorismo, dizia Edgar! Hoje em dia, todo mundo pode comprar uma máquina fotográfica e brincar de fotógrafo artístico! Ou gravar um CD, fazer um filme... Youtube, MySpace, Facebok, essa merda toda! Mas não Edgar. Edgar não era destes, e preferia investir seu valioso dinheiro em vinhos de qualidade, baseado em suas incansáveis pesquisas e leituras - o verdadeiro caminho para o conhecimento. Edgar acompanhava anualmente o desenvolver das safras francesas, nas regiões e terroirs de sua preferência. Para cada região tinha seus preferidos, em Côtes du Rhône, por exemplo, Edgar gostava do norte do Rhône, Côte-Rôtie e Hermitage; em Beaujolais, gostava de Fleurie; em Bordeaux, preferia os vinhedos situados ao lado esquerdo do Rio Gironda, rodeado por largas faixas de terra e florestas coníferas, que dão um efeito moderado ao clima marítimo da área; em Burgundy, sem dúvida era Chablis para os brancos, e Côte de Nuits, com seus pinot noirs fabulosos! Edgar também apreciava os vinhos italianos, principalmente os Amarones della Valpolicella, Barolos, Brunellos super toscanos, sem deixar de lado os espanhóis de Priorat, Navarra, Rioja e Ribera del Duero, e também os portugueses do Douro e Alentejo.
Baseados nestas informações todas, poderíamos dizer que Edgar era um apreciador de vinhos do velho mundo, e estaríamos corretos, mas o que não poderíamos dizer é que Edgar nunca se interessara pelo novo mundo. Edgar já esteve em feiras vinículas e gastronômicas na Argentina, no Chile, nos EUA, na África do Sul, na Austrália e na Nova Zelândia. Há coisas de qualidade, reconhecia, mas faltava algo... tempo, talvez.
Convêm dizer que, depois da primeira garrafa, o controle de qualidade de Edgar ficava prejudicado. Não só para o vinho, mas para tudo. Experiente bebedor que era, Edgar sabia que depois da primeira garrafa - geralmente um belo vinho - a seguinte deveria ser de qualidade inferior. Neste caso, as seguintes... O que Edgar buscava na quarta garrafa já não encontrara na terceira e tampouco na segunda! Não tinha mais nada a ver com apreciação de vinhos - era pura bebedeira!
Edgar se levantara para pegar o saca-rolhas antes memso de selecionar o vinho. Munido do saca-rolhas percebeu que lhe faltava a garrafa. Sentiu-se tolo, sorriu para si mesmo e caminhou em direção ao seu gabinete que comportava a consideráveis 120 garrafas de vinho. Por vezes Edgar se questionava se não era pequeno demais o gabinete. Pegou-se pesquisando gabinetes de 300, 500 garrafas, mas logo desistiu... algo dentro dele dizia para não comprar.
Cambaleante, Edgar abriu a porta do gabinete para horrorizado constatar que só lhe restava uma garrafa de vinho! Espantado e incrédulo - jurava que o gabinete estava com mais da metade, apenas uma garrafa atrás - e sem saber descrever exatamente o que sentia, Edgar pega a garrafa e tenta ler o rótulo, mas não acredita no que vê... ou pensa que vê: o lendário Château d'Yquem 1811, a chamada Safra do Cometa! Uma raridade para colecionadores!
Ranzinza que era quando ficava um pouco alcoolizado, Edgar pragueja, "Mas que merda... vinho branco de sobremesa?!?". Além de não ser muito inteligente abrir um vinho bom depois da segunda garrafa, muito menos inteligente seria abrir um vinho cotado a 75.000 libras esterlinas - considerado o vinho mais caro do mundo! Edgar sabia não ter esse vinho em sua adega, mas atônito que estava, isso era apenas um detalhe.
Decidido a abrir a quarta garrafa de vinho, Edgar vai até o mercado da esquina e constata que a sessão de bebidas estava fechada - uma das muitas hipocrisias nos mecados locais, fechar a sessão de bebidas após as 22:30.
Volta pra casa sem opção a não ser abrir o Château d'Yquem, que conscientemente sabe não possuir! Na primeira tentativa de sacar a rolha, ela praticamente se desfaz! Edgar acaba de empurrá-la garrafa adentro, e munido de um coador entorna uma taça generosa do vinho, para constatar que o mesmo estava estragado!
Alucinado, e agora com uma necessidade alcoólica que já se tornou molecular, Edgar começa a revirar todas prateleiras em busca de algo alcoólico - qualquer coisa - mas nada! Nada restara, a não ser... Edgar corre para a área de serviço do apartamento e revira desesperadamente a dispensa que fica debaixo do tanque. "Onde... onde estará aquele litro de Zulu..."
Com o litro de álcool nas mãos, Edgar olha para os lados, sem jeito, como se quisesse se desculpar pelo seu ato... mas Edgar morava só, e aquela era só mais uma daquelas noites intermináveis das suas semanas, em que costumava alcoolizar-se na tentativa de acelerar os tiques e os taques do maldito relógio... sempre em vão!
Edgar corre para a cozinha aos cambaleios, protegendo o litro de Zulu como se sua vida dependesse dele. Pega um copo, dispensa água e gelo, despeja uma boa dose do álcool e o entorna! Faz uma careta de quem não gostou mas repete a dose uma, duas, três vezes!
* * *
Dona Marluce, a vizinha do 203, acorda de repente com um grito horrível vindo do apartamento ao lado - "É do apartamento do seu Edgar!" Veste sua camisola e quando abre a porta do corredor vê Juvenilda, a empregada de Edgar, passar correndo, ainda aos gritos!
Dona Marluce entra no apartamento de Edgar e depara com a cena: Edgar caído no chão da sala, a boca espumada, e uma garrafa de veneno de rato nas mãos. A porta da adega estava escancarada, e 83 garrafas de vinho estavam espalhadas pelo chão da sala. Ao lado de Edgar, 6 garrafas de vinho, 5 vazias e uma aberta, faltando apenas uma taça.
Dona Marluce pacientemente transfere as 83 garrafas para o seu apartamento. Antes de se retirar, senta-se no sofa, pega a taça abandonada praticamente cheia, olha contra a luz através do vinho branco e licoroso... pega a garrafa quase cheia e lê em voz alta, "Château d'Yquem, Lur-Saluces, 1811". Pensativa, dona Marluce matuta com seus botões, Chatô di quem? Saluce? Uai, será qui é daquela minha colega lá di Minas?" Dona Marluce dá um longo gole no vinho com o qual acredita ter algum tipo de ligação, e comenta, "Ô trem bão... docin, docin, esse vinzin!" Mete-o debaixo do braço e deixa a cena.
29.9.11
quashelênico
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| http://greekartists-yannisstavrou.blogspot.com/ |
um verbo ainda que grego
azul
céu azul
mar azul
barco azul
pra lá pra cá pra lá pra cá
pra cima pra baixo pra cima pra baixo
vira vira barco vira sacode sacode barco sacode
roda roda tudo roda tudo roda roda roda
AtenasPiraeusMykolosSantoriniinirotnaSsolokyMsueariPsanetA
roda roda tudo roda tudo roda roda roda
vira vira barco vira sacode sacode barco sacode
pra cima pra baixo pra cima pra baixo
pra lá pra cá pra lá pra cá
barco azul
mar azul
céu azul
αζoυλ
5.7.11
Uma homenagem a Mário Chamie
O Tolo e o Sábio
O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.
Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.
Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.
Mário Chamie lançou seu primeiro livro, "Espaço Inaugural", em 1955. Em 1962, lançou "Lavra, Lavra", livro fundador da poesia-práxis e vencedor do Prêmio Jabuti. Entre 1979 e 1983, Chamie foi secretário municipal de Cultura e foi um dos responsáveis pela criação do Centro Cultural São Paulo e da Pinacoteca do Estado. Ultimamente lecionava na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e também era locutor do programa "50 por 1", um programa de viagens exibido pela Rede Record e apresentado por Álvaro Garnero. Chamie morreu às 9h deste domingo no Hospital Oswaldo Cruz.
O sábio que há em você
não sabe o que sabe
o tolo que não se vê.
Sabe que não se vê
o tolo que não sabe
o que há de sábio em você.
Mas do tolo que há em você
não sabe o sábio que você vê.
Mário Chamie lançou seu primeiro livro, "Espaço Inaugural", em 1955. Em 1962, lançou "Lavra, Lavra", livro fundador da poesia-práxis e vencedor do Prêmio Jabuti. Entre 1979 e 1983, Chamie foi secretário municipal de Cultura e foi um dos responsáveis pela criação do Centro Cultural São Paulo e da Pinacoteca do Estado. Ultimamente lecionava na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e também era locutor do programa "50 por 1", um programa de viagens exibido pela Rede Record e apresentado por Álvaro Garnero. Chamie morreu às 9h deste domingo no Hospital Oswaldo Cruz.
22.2.11
22022011
vinte onze, vinte onze, vinte onze,
tanto vai e vem que nem sabes donde
veio, e tudo com menos de dois vinténs e meio,
ainda mais depois que teu papel cair do céu, pronde vais?
trinta e quinze, trinta e quinze, trinta e quinze
és o único que a barba de branco tinge
dos teus bens se desfaz - pra você parabéns,
nesta data desquerida ou desesperada, tanto faz
e se de esperar já te cansas, ressabiado
saibas que estás mais perto, aliviado
e se teus círios se apagam mais rápido,
e teu caminhar te quer mais plácido
vinte onze, vinte onze, vinte onze.
Donde veio e pronde vais?
Vão te ver nunca mais?
tanto vai e vem que nem sabes donde
veio, e tudo com menos de dois vinténs e meio,
ainda mais depois que teu papel cair do céu, pronde vais?
trinta e quinze, trinta e quinze, trinta e quinze
és o único que a barba de branco tinge
dos teus bens se desfaz - pra você parabéns,
nesta data desquerida ou desesperada, tanto faz
e se de esperar já te cansas, ressabiado
saibas que estás mais perto, aliviado
e se teus círios se apagam mais rápido,
e teu caminhar te quer mais plácido
vinte onze, vinte onze, vinte onze.
Donde veio e pronde vais?
Vão te ver nunca mais?
6.2.11
um Yeats...
(...)
Lance um olhar frio
Sobre a vida, sobre a morte.
E releve, cavaleiro!
(...)
Cast a cold eye
On life, on death.
Horseman, pass by!
Cast a cold eye
On life, on death.
Horseman, pass by!
3.11.10
Um Leminski, assim, à toa...
![]() |
| Land, Sea, Sky I - 16" x 16", Oil on canvas. M. Marcus A. Lopés, 2008 |
se
nem
for
terra
se
trans
for
mar
nem
for
terra
se
trans
for
mar
20.10.10
10.10.10
20.9.10
20092010
20092010 é hoje, nesta data neste "pattern"
20082011 que nos dois últimos anos venho
20072012 já há três hesitando, pensar pensando
20062013 se ainda há pelo menos mais quatro
20052014 de trabalho ou se em 5 ou 6 estarei
20042015 já fazendo o que vim aqui fazer...
12.9.10
os mal-vindos
Patricia A. Smith - "The Royal Treatment" 22" x 34" Acrylic on Bamboo Mat
Mandou eu me aprumar e tomar o meu rumo
Mandou eu apagar o cigarro que eu nem fumo
Mandou eu voltar sem saber se eu estava indo
Nunca é convidado mas se acha bem-vindo
Não viu e nem ouiviu, não sabe quem foi
Pela minha graça quer dar nome ao boi
Olha pro lado e aponta o dedo sorrindo
Não sabe de nada, mas vive se exibindo
Tem o carro mais bacana, a mulher a mais gostosa
O dinheiro mais limpo, a merda mais cheirosa
Teu espelho tá quebrado e pensa que está tinindo
Assim que ele chega todos vão logo saindo
Chega no meio do papo e quer puxar assunto
Não sabe quem morreu mas quer velar o defunto
Diz que já fez, que já leu e que tudo conhece
É só papo furado, até o nome da mãe ele esquece
Numa realidade deturpada ele vive desconectado
Preste atenção Fulano, que vou te passar um recado
Antes mesmo de despertar para o seu eterno domingo,
Antes mesmo de chegar, considere-se mal-vindo.
Findo.
13.8.10
Yo no creo pero...
Segura a barra
A bruxa está solta
Não dê moleza
Ela pode estar na mesa
O dia inteiro
Até mesmo no banheiro
Ou de pijama
Dormindo na sua cama
Yo no creo en brujas
Pero que las hay, las hay
Yo no creo en brujas
Pero que las hay, las hay...
18.5.10
O Brinquedo Novo Do Filho Do Rei
Photo by Craig Heimburger, travelvice.com
Uma Saga Capitalista Através dos Séculos
Séc. XV
Quando veio ao mundo o filho do Rei
já veio dizendo ao que veio.
Trazia coriscos invisíveis nos olhos
e puas daninhas na língua,
sem corpo, face ou alma…
Séc. XVI
“Aonde estávamos quando nasceu o filho do Rei?”
“Não estávamos cuidando dos brotos de arroz,
que antes mesmo do nascimento do filho do Rei já não tínhamos terra”
“Então, o quê fazíamos quando nasceu o filho do Rei?”
“Íamos devagar, cansados, com fome e com sede,
e não chegamos a tempo de homenagear o nascimento do filho do Rei”
“Não há perdão nos negócios do Reino… é por isso que nos mataram.”
Se já eram fios de outros que trançávamos
e sementes de outros que plantávamos
(que plantações terão crescido? Que peças terão costurado?)
nosso desgosto já era por demais amargo,
ainda assim voltamos para nossa terra…
voltamos sob nossa terra, sob o domínio do Rei.
Séc. XVII
Quando pequeno, brincávamos no portão de casa,
nas terras que eram de meu pai.
Tanto brincávamos que não dava tempo de crescer a grama.
Brincávamos ao dia, brincávamos à noite,
e foi numa noite de alta lua
que pai partiu para o Reino, sob ordem do Rei.
Só sabia que era a trabalho, nada mais —
e trabalho pai não temia.
Depois foi a vez de mãe… partiu em busca de pai.
Pedi que mandasse notícia quando o encontrasse…
Minha dor em ver o capim crescer no portão
lembrando os anos avançados…
o Reino chegando cada vez mais perto,
quase invadindo meu coração, e sem trazer notícias.
Então, parti, nu, para o Reino, suplicar ao Rei:
“Amontoa meus ossos e os que me pertencem
num sepulcro junto à árvore da minha casa e grave:
‘Família sem nome e sem fortuna’ e ergue nele
o arado comum a todos os meus amigos.”
Mas o Rei não tinha corpo, face ou alma
e nossos ossos (não-polidos) não foram amontoados,
e amarelaram de tanto outono.
E algumas fogueiras se ergueram,
iluminando, com suas chamas,
alguns corpos, algumas faces, algumas almas…
Séc. XVIII
Creio que a vida será mais fácil
agora que não preciso galgar árvores
para vigiar a terra de bárbaros.
Toda terra e toda posse é presente nosso ao filho do Rei
(embora não daríamos nossa terras e nossas posses ao filho do Rei).
Nosso espírito repleto de afição não teve escolha…
nossos amigos já não conversam, não pedem mais o arado,
não falam sobre a plantação (que não são deles),
não conversam com suas mulheres (que às vezes são deles),
não conversam mais sobre nada (isto sim lhes pertence).
Algumas fogueiras (aquelas) ainda queimavam…
fracas labaredas aqui, outras mais fracas ali,
iluminando — embora menos — com suas chamas
poucos corpos, poucas faces, poucas almas…
Todos no Reino estavam ficando sem corpo, face ou alma.
Séc. XIX
O sol parece não querer brilhar mais no Reino,
e as trevas se tornam mais intensas que a luz.
O Rei mandou comprar um sol para seu filho,
e os privilegiados desfrutam o calor deste dinheiro.
Dizem que este é o único sol existente, por isso não brilha mais no campo;
terra morta separa o campo do castelo do Rei,
e é só isto que nos sobrou: invejamos nossos animais
que não sabem sofrer com o coração.
“Somos tuas almas também, não se desesperem!
Não há dor que não seja pouca ao filho do Rei”
Mas volumosa massa não pode sucumbir
e a intensidade desta fogueira e suas brasas, reerguem,
por braços fortes, a luz, que ameaça voltar e iluminar todo o Reino…
mas é impenetrável o castelo, onde os privilegiados
ainda cerram seus olhos fundos entre velas indolentes.
Séc. XX
Não contente com o sol, pela sua grandeza,
quis também a Terra, nossa alteza,
e esforços não foram medidos para que ela toda
coubesse no baú de brinquedos do filho do Rei.
E de posse do novo brinquedo, gargalhava o filho do Rei,
diminuindo terras, aumentando mares, queimando florestas,
em busca de novas emoções no seu brinquedo novo.
Peças caídas, afogadas e queimadas,
o que representam frente ao divertimento do filho do Rei?
“Não deve existir união (já que a Real não existe).
Não deve haver diversão (já que a Real é enfadonha).
Vizinhos e amigos, jamais (o filho do Rei não precisa disso).
Tudo deve girar em torno do Trono (expressão máxima da boa-ganhança).”
E pessoas eram tratadas como animais,
e na queda de uns, muitos haviam para se levantar.
Animais, pessoas e coisas…
nada era algo enquanto durasse o jogo do filho do Rei.
As trombetas anunciavam,
e o povo entorpecido espalhava a notícia:
“Submetam-se ao filho do Rei, ele é a esperança.
Esqueçam seus valores, suas posses, seus sentimentos
e abracem a vontade do filho do Rei.”
Mas o Reino se tornou maior que a esperança,
e à porta de todos não bateu a boa-venturança,
e os portões do palácio se fecharam (dando a impressão de abandono).
Só uma luz, no alto da torre, mantinha-se acesa…
o filho do Rei continuava seus jogos
cada vez mais sozinho… o grande vencedor.
Os outros? Meras peças de estratégia…
peões, cavalos, bispos e torres tombados em torno do Rei.
E o filho do Rei acumulou suas vontades, suas malícias, suas bonanças…
Mas não havia o que fazer com elas,
e as coisas se tornaram difíceis e custosas,
e o Rei e seu filho ficaram sozinhos,
com o mundo prostrado aos pés do trono.
E daquela fogueira que só brasa restou,
um vento de tão forte fúria labaredas favoreou
que logo, em chamas intensas se tornaram,
e todo o Reino já morto, o palácio, o Rei e seu filho enfermo
foram envolvidos pelo fogo daquele inferno.
Séc. XXI
Agora sim, o nada se consolidou… apenas cinzas,
levadas pra cá e pra lá pelo vento calmo.
Foram muitos anos até que a primeira planta brotasse,
não se sabe de onde… muito menos de onde soergueu aquele homem,
já com uma enxada na mão a mexer a terra, e depois outro homem, e outro…
e cresceram plantas, ergueram-se animais, ergueram-se gente,
construindo casebres, juntando-se em aldeias,
vivendo da terra, da água e do ar.
Até que um desinfeliz oferece trocar um porco por três enxadas…
29.4.10
Get 'Em Out By Friday
(Banks/Collins/Gabriel/Hackett/Rutherford)
[John Pebble of Styx Enterprises]
"Get 'em out by Friday!
You don't get paid till the last one's well on his way.
Get 'em out by Friday!
It's important that we keep to schedule, there must be no delay."
[Mark Hall of Styx Enterprises (otherwise known as "The Winkler")]
"I represent a firm of gentlemen who recently purchased this
house and all the others in the road,
In the interest of humanity we've found a better place for you
to go, go-woh, go-woh"
[Mrs. Barrow (a tenant)]
"Oh no, this I can't believe,
Oh Mary, they're asking us to leave."
[Mr. Pebble]
"Get 'em out by Friday!
I've told you before, 's good many gone if we let them stay.
And if it isn't easy,
You can squeeze a little grease and our troubles will soon run away."
[Mrs. Barrow]
"After all this time, they ask us to leave,
And I told them we could pay double the rent.
I don't know why it seemed so funny,
Seeing as how they'd take more money.
The winkler called again, he came here this morning,
With four hundred pounds and a photograph of the place he has found.
A block of flats with central heating.
I think we're going to find it hard."
[Mr. Pebble]
"Now we've got them!
I've always said that cash cash cash can do anything well.
Work can be rewarding
When a flash of intuition is a gift that helps you
excel-sell-sell-sell."
[Mr. Hall]
"Here we are in Harlow New Town, did you recognise your block
across the square, over there,
Sadly since last time we spoke, we've found we've had to raise
the rent again,
just a bit."
[Mrs. Barrow]
"Oh no, this I can't believe
Oh Mary, and we agreed to leave."
(a passage of time)
[18/9/2012 T.V. Flash on all Dial-A-Program Services]
This is an announcement from Genetic Control:
"It is my sad duty to inform you of a four foot restriction on
humanoid height."
[Extract from coversation of Joe Ordinary in Local Puborama]
"I hear the directors of Genetic Control have been buying all the
properties that have recently been sold, taking risks oh so bold.
It's said now that people will be shorter in height,
they can fit twice as many in the same building site.
(they say it's alright),
Beginning with the tenants of the town of Harlow,
in the interest of humanity, they've been told they must go,
told they must go-go-go-go."
[Sir John De Pebble of United Blacksprings International]
"I think I've fixed a new deal
A dozen properties - we'll buy at five and sell at thirty four,
Some are still inhabited,
It's time to send the winkler to see them,
he'll have to work some more."
[Memo from Satin Peter of Rock Development Ltd.]
With land in your hand, you'll be happy on earth
Then invest in the Church for your heaven.
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