19.10.06

-: pequeno tratado do desterro :-
heresias

1.

alá
+ 66 deuses terríveis
queimam aloés negro

2.

bâqi o eterno e amável
de amor açucara o ar
com danûsh e nulûsh

3.

jâmi
reúne os terríveis
e os amáveis

4.

dayyân conta
65 sândalos vermelhos
ao sol

5.

hâdi com seus 20 guias
também busca sândalos
embora brancos

6.

wali
amigo de puyûsh e raftmâ’il
exala cânfora

7.

zaki
purifica o câncer
com água e mel

8.

haqq composto de
verdades e ódio e terra
composto

9.

tâhir
e o terrível desejo
santo de fogo

10.

yâsin chefe
atrai 130 folhas
de rosas de marte

20.

kâfi presumido folhas
de rosas brancas
e escorpiões

30.

latif separa as maçãs
benignas
para vênus

40.

malik rei de marmelo
leão terrível
de amor

50.

nûr
luz de ódio odor
jacinto libra amável

60.

sami’ ouve desejo
expresso nos diferentes
perfumes d’água

70.

’ali exaltado enriquece na
terra virgem da pimenta
branca

80.

fattâh que abre a noz
para o leão e a
hostilidade

90.

samad estabelecido sob
sol e intensidade
moscada

100.

qâdir
composto água desejo
peixe e vênus

200.

rab + 200 senhores
banham virgens com
água de rosas

300.

shafi’ aceita o escorpião
com aroma de aloés
branco

400.

tawwâb perdoa
a insônia de latyûsh e
azrâ’il

500.

thâbit
estável ódio e águas
sem peixes e águas

600.

khâliq criador de 731
violetas na terra de
capricórnio

700.

dhâkir se recorda dos
manjericões de fogo
em fogo

800.

dârr com ar cítiso
pune vênus
e aquário

900.

zâhir evidencia
1106 hostilidades
a ghafûpush e nurâ’il

1000.

ghafûr grande perdoador
despeja cravos-da-índia
na terra convalescente

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmtª feira, dezº nonº dia do dezº mez d este anno de MMVI

21.9.06

eu e minha boca ferida, leiloada ao silêncio
numa manhã desprovida de pássaros e sem lascas de sol.
uma nudez de alguma ausência anuncia um acontecimento:

busco devolver o corpo ao corpo... do corpo aos corpos
depois de tudo o que passei:

joões-de-barro despencados galho a galho
pedras desfolhadas em saveiros estelares
surpreso ao constatar que algo em mim ainda cresça,
(apesar de tudo)

a dureza,
à dureza,
àa dureza.
àà dureza.


nascido em fevereiro,
como pude endomingar-me?


asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmtª feira, vigézº primº dia do nonº mez d este anno de MMVI

16.9.06

... e o tempo não parou para nós
como esperávamos.
antes, ele nos abraçou com a vontade
de quem revê um velho amigo que não se via há muito...

mas ao menos fizemos graça disso tudo,
como brincadeira de criança:
um ano para você, um ano para mim,
invariavelmente...

assim nossos olhos cegos poderão
continuar a enxergar em nós
toda a beleza que queremos enxergar...

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, sabbato, dezº sexº dia do nonº mez d este anno de MMVI

6.9.06

Grandfather

Derek Mahon, born Belfast 1941

They brought him in on a stretcher from the world,
Wounded but humorous; and he soon recovered.
Boiler-rooms, row upon row of gantries rolled
Away to reveal the landscape of a childhood
Only he can recapture. Even on cold
Mornings he is up at six with a block of wood
Or a box of nails, discreetly up to no good
Or banging round the house like a four-year-old --

Never there when you call. But after dark
You hear his great boots thumping in the hall
And in he comes, as cute as they come. Each night
His shrewd eyes bolt the door and set the clock
Against the future, then his light goes out.
Nothing escapes him; he escapes us all.

19.8.06

despojamento

...e por outro lado, outras bandas & outros ares
outros todomundo perguntavam, apesar dos pesares:
e tu, amiga, sabes donde estas metendo tua colher?
e tu dizia, preocupem não, sei o que estou a fazer.

embora saber sabia, o que prever não podia era donde
tal viagem ia dar, no coração é certo, se perto ou longe
do núcleo, ele mesmo o divisor do que é eterno ou efêmero,
que só de a dúvida brotar já fica o coração mais enfermo...

e coisa vai, coisa ia, tudo bem regado a certa poesia,
a tal do dia a dia, que encanta, enfeitiça e alumia
e se já se vai meio sem rumo, ponto sem nó, fruta sem sumo
aí é que o bicho pega, a cabra cega e a cobra leva fumo.

e mesmo sem crer em dito popular, maldito ou bendito que seja
entrega-se a alma e tudo mais que nela se carrega, de bandeja,
e ao entregar tão valoroso bem a um outro, esse tal de Alguém,
vê-se que também se queria que esse Alguém lhe desse o mesmo bem,

mas se de esperar a gente se cansa, contravontades de amores
então luta-se contra a vontade, a evitar devastações maiores
e parte-se, divide-se, subtrai-se então, e sem somatória
vai-se à procura de algo(uém) pra ajuntar e fazer história.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, sabbato, dezº nonº dia do octº mez d este anno de MMVI

16.8.06

"eu vivo em trincheiras provisórias "
antônio risério


todo morto traz na cara
a marca do que viveu
cujo cunho pode estar no peito
feito o cunho que está no meu

todo morto tem uma vida
dia ou outro rogada a deus
heréu cabresto da própria sina
enzima azêda que acometeu

todo morto bem morrido
é jazido na jazida que escolheu
aquilo que te mata, meu amigo
te digo que também mata eu.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qvarª feira, dezº sesº dia do octº mez d este anno de MMVI

15.8.06

los tejidos templarios

achega-te a mim nega, diz em primeiro plano -
titubeante mas fluente - que sou, que faço, me abunda
incha minha bola de festim com estalido catalano
(estou absolutamente apático nesta segunda)

dou de comer & de beber a todo o ócio distraído
tapas & beijos & cavas a alegrias passageiras
imagino-me como uma puta de avenidas estrangeiras
a exibir um falso-brilhante já gasto e abatido

fecho as janelas, deito-me ao chão do equador
inevitavelmente ao sul, tanto por aquis como por lás
sempre voltarei para os flamboyants dos meus orixás

já posso me ver como um gris de flamejante topor
a consumir meus dias avindos e voluntários
lleno de estampas en los tejidos templarios.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, terçª feira, dezº qujmto dia do octº mez d este anno de MMVI

13.8.06

retirante

para meu pai, no seu dia...

e se quando aqui chegou
tinha algo pra falar, calou:
é que o coração desdentado
desconhecia o verbo enroscado
na garganta

e aquele mundo antes pequeno,
ameno, que lhe possibilitava, matou.
:deixou de sonhar o horizonte númeno
autógeno da possibilidade iminente
e lembrou

de um passado saudoso, e chorou
o choro dos bravos, mas lutou
pelo que veio buscar, eminente
veio, viu, venceu: plantou fruto donde
nasci eu...

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, domjngo, dezº terçº dia do octº mez d este anno de MMVI

10.8.06

alheia

manter o movimento das coisas
nas coisas todas que tocaste
como se mexidas há pouco
no pouco tempo que ficaste.

e parece que ainda andas de vulto
inulto bulir das coisas com precisão
de ladrão: rouba-me, leva-me, lava-me,
sirva-te de mim, mas não deixa eu não.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmta feira, dezº dia do octº mez d este anno de MMVI

alumia

[para arnaldo xavier]
alumia
incandesce o extremo norte
desse cachimbo boreal
e inala...
inala ao sul desce denso peyote
chicote açoita narinas & pulmões

alumia, alumia
bota voz & poder dentro nessa boca
abre braços & pernas prum leste-oeste qualquer
e constata...
está tudo tão cheio de deuses,
e deuses não arredam pé

alumia, alumia, alumia
explode veia temporal & fecha
o sabre-flecha d'cabeça escalpada
e arremata...
mata um pássaro hontem
com a pedra que atiraste oje.

asyno eduardo miranda
deste porto seguro da jlha do Eire,
oje, qujmta feira, dezº dia do octº mez d este anno de MMVI

25.7.06

the week - sunday

sunday.
sweaty sheets & awakenings of oversleep —
but never will be an oversleep.
silent sun of fire planks
my fourth moment.

childish tv shows, families i don’t want
everything's just a sedative (in bulk) for the game.

lunch at my place, everybody is welcome
we’ll try to have fun.
then, movie theater, beer & snacks
(and still the fairies will be in their nests)

the ends are all the same
masses i don’t attend
(can’t stand civilization)
and you went awayforgetting to take my heart along.




domingo.
lençóis suados e despertares de perder a hora —
mas nunca haverão horas a perder.
silêncioso sol de fogo assoalha
meu quarto instante.

programas infantis, famílias não me quero
tudo só calmante (a granel) para o jogo.

almoço lá em casa, chama o pessoal
a gente tenta se divertir.
depois cinema cerveja & pastel
(e ainda assim as fadas estarão em seus ninhos)

os finais sempre os mesmos
missas que não freqüento
(não suporto civilização)
e você foi embora
esquecendo de levar meu coração.

the week - saturday

saturday.
afternoons smothered in slim tears
transparent, absent. (non-existent)
telephone call compromising
desires full of sunbath

but today is more was more will be more…
wide black hat (her gift)
golden braids & petroleum earrings:
don’t let our boat wreck!

round and smiling coats
movies without tales …
doesn’t matter whether lying sitting or standing
showers & jacuzzi baths
your naked always virgin body
so my sins could engulf you.

do not demand anything and i will not desire either
let us be imperfectand our adorations still will be unique…




sábado.
tarde sufocada em fina lágrima
transparente, inexistente.
telefonema compromete
vontade cheia de banho de sol.

mas hoje é mais foi mais será mais…
chapéu largo e preto (presente dela)
tranças de ouro e brincos de petróleo:
não deixe naufragar nosso barco!

casacos redondos e risonhos
filmes sem contos…
não importa se deitado sentado ou em pé
duchas & hidromassagens
teu corpo nu sempre virgem
para que meus pecados possam te satisfazer.

não exijas nada que também não desejo
sejamos imperfeitos
e nossas adorações ainda serão únicas…

the week - friday

friday.
hallucinations disturb
what you think feel see.
body culture there
beers & spirits & nicotines here
occasionally we break the routine.

courage! courage!
put down your guard & your guns…
he&she young guns dirty sweaty itchy
stuck on li'le nylon bags (i see…)
luxury is out (madness…)
humidifying our stunted eyes.

icebergs worn
for a typical tropical summer morn…
not that conventional, not that bad…what can go bad?


sexta.
alucinações perturbam
o que você pensa sente vê.
culturas do corpo ali
cervejas & aguardentes & nicotinas aqui
vez ou outra a gente quebra a rotina.

coragem! coragem!
baixe a guarda & a arma…
moleques & molecas sujos suados sarnentos
colados em sacos plásticos (entendo…)
o luxo está em baixa (loucura…)
umedecendo nossos olhos pequenos.

icebergs fantasiados
para uma manhã de verão carioca…
nada convencional, nada mal…
o que vou mal?

20.7.06

the week - thursday

thursday.
it’s coming it’s coming
almost 7 but not 5.
(i lie & lie & lie)
i love to lie and break logics into small pieces
or be silent. i’m going to be silent now!

music ‘de lius’, or
invertebrate prelude
of the purest stainless steel
crowned & unexplained
vague silent-pause chained
hard line de-ridiculed
of all yearnings want-mores.

I hope to see you but I don’t see you
kiss……………
bye…………….


quinta.
vem chegando vem chegando
hoje dá 7 mas não chega 5.
(minto minto minto)
adoro mentir e estilhaçar lógicas
ou me calar. vou me calar agora!

música de lius, ou
prelúdio invertebrado
do mais puro aço
coroadas & inexplicadas
vago silêncio-pausa acorrentado
duro traço desesculachado
de todo queromais.

espero te ver não te vejo

beijo……
tchau…………

19.7.06

the week - wednesday

wednesday.
spacials cinema showings in the city centre:
popcorns & chocolates. kisses before and after.
darkness of lost lanterns,
lipsticks & gums…
who talks about the job pays a candy!

black tea and milk, book sales, cigarettes
(cof! cof! cof!)…
the smoke disappears in the cold of the night
like us.

we embrace each other,
and share our warmth.
buses & shoulders & sleepinesses
all the way home on foot.

searching for free laughs
yet we are both of a different us.


quarta.
sessões de cinema espaciais no centro da cidade:
pipocas & chocolates. beijos antes e depois.
escurinho de lanternas sem destino,
batons & chicle…
quem falar de serviço paga um bombom!

chá mate com leite, liquidação de livros, cigarros
(cóf! cóf! cóf!)…
desaparecem as fumaças no frio da noite
assim como nós.

a gente se abraça,
divide nosso calor.
ônibus & ombros & sonos
o caminho pra casa, a pé.

em busca de risadas livres
ainda somos diferentes dois.


18.7.06

the week - tuesday

tuesday.
the third time i call you in my imagination
looking for something under the desk
for some kind of note: crystalline forgivenesses,
streams of tear drops and truths,
anonymous, sulphurous, disinfected. nothingness.

but today musical signs will take over
my thoughts,
but the heart, nudging, nudging,
like a cunning wand waving:
one, two, three, four, one, two, three, four,
one, two, 3, 4…

5.000 times no!
one day i’ll see you
far from feline eyes…
and nevertheless it will be real
as it always was.


terça.
terceira vez que te ligo de imaginação
procurando embaixo das mesas
algum recado: perdoares cristalinos,
gotas de lágrimas e de verdades,
anônimas, sulfurosas, desinfetadas. nada.

mas hoje notas musicais tomarão conta
de meus pensamentos,
menos do coração, que cutuca, cutuca,
feito batuta astuta:
um, dois, três, quatro, um, dois, três, quatro,
um, dois, 3, 4…

5.000 vezes não!
um dia eu vou te ver
longe de olhares felinos…
e ainda assim será de verdade
como sempre foi.

17.7.06

the week - monday

monday.
a rose looks tenebrous
in this garden.

even now early i am out of myself...
buses, books, news i didn’t read
beautiful girls & their wretched wet hair
& crushed faces (what's for lunch?)
clock-in card and the beginning of the week…
the same flutter.

drizzle cries drops outside — it’s my turn…
quick! the mask! the mask!
i don’t want to sin anymore!

i have my feet fixed into the cement,
& wreck: “going down... and down...
get lost with him,
it’s not worth this torment!”

but it’s just the beginning, nothing ends that soon.
we can’t allways keep up with appointments
contempts & break-ups loaded involuntarily
graves of light in flooded epitaph…
inside will be the eyes of comprehension.


segunda.
uma rosa parece tenebrosa
neste jardim.

já cedo me perdi…
ônibus, livros, notícias que não li
garotas bonitas e seus pobres cabelos molhados
& caras amassadas (o que será no almoço?)
cartão de ponto e início de semana…
o mesmo alvoroço.

uma garoa chora lá fora — chegou minha vez…
rápido! a máscara! a máscara!
não quero pecar outra vez!

tenho os pés cravados no cimento,
e afundo: “ao fundo… ao fundo…
sumam com ele,
não vale a pena este tormento!”

mas é apenas o começo, nada acaba tão cedo.
nem sempre podemos respeitar as horas marcadas
desprezos & foras carregados involuntariamente
túmulo de luz em epitáfios inundados…
dentro estarão os olhares de compreensão.

16.6.06

the bloomsday

Hoje é Bloomsday, data fictícia comemorada oficialmente para homenagear Ulysses, romance de James Joyce. Se trata das aventuras de Leopold Bloom pelsa ruas de Dublin, no dia 16 de Junho de 1904.
=8¬;/

A Flower Given to my Daughter

Frail the white rose and frail are
Her hands that gave
Whose soul is sere and paler
Than time's wan wave.

Rosefrail and fair--yet frailest
A wonder wild
In gentle eyes thou veilest,
My blueveined child.

James Joyce, Trieste, 1913

8.6.06

we real cool - gwendolyn brooks


The Pool Players ~ Seven at the Golden Shovel

We real cool. We
Left school. We

Lurk late. We
Strike straight. We

Sing sin. We
Thin gin. We

Jazz June. We
Die soon.

gwendolyn brooks

31.5.06

Walt Whitman

Hoje seria o aniversário de Walt Whitman. Nascido a 31 de maio de 1819 em South Huntington, Long Island, New York...

A primeira edição de Folhas de Relva (Leaves of Grass) foi publicada por Whitman, às próprias custas, em 1855, no memso ano da morte do pai. Nesta época, o livro consistia de 12 poemas longos e sem título. A reação de público e crítica foi irrelevante. Um ano mais tarde, a segunda edição, incluindo uma carta pessoal de parabenização de Ralph Waldo Emerson, na qual o próprio Emerson se surpreendeu ao ver publicada. A edição continha 20 poemas adicionais. Durante a Gerra Civil Americana, Whitman ajudou a cuidar de soldados feridos na cidade de Washington e imediações. Ali teve a oportunidade de conhecer Abraham Lincoln, e veio a ser um grande admirador do Presidente. Seu poema "O Captain! My Captain!" (Oh Capitão! Meu Capitão!) popularizado por Robin Willians no filme A sociedade dos Poetas Mortos em 1989, foi inspirado na morte de Lincoln.



Não chamo um o maior e outro o menor,
Quem quer que preencha o seu período de tempo
e lugar é igual a qualquer outro.

Meus signos são uma capa à prova de chuva, bons
calçados e um bordão colhido nos bosques.
Nenhum dos meus amigos busca descanso em
minha cadeira.
Não possuo cadeira, nem igreja, nem filosofia,
Não conduzo homem algum à mesa do jantar,
biblioteca ou casa de câmbio,
Mas conduzo cada um de vós, homem ou mulher,
para o alto de um outeiro
Minha mão esquerda prende-vos pela cintura,
Minha mão direita aponta em direcção de
continentes e estrada aberta.